Essa sensação de estar sempre sozinhos mesmo... porque, no limite, estamos... mas somos humanos, somos carne, somos essa coisa que nos preenche e nos esvazia a todo instante. estamos em movimento: existe vida, sofrimento, ponto de alegria, horas ininterruptas de angústia, explosões, ôxe... é essa coisa sofrida, tropeçada, empurrada, tipo carrinho de mão enferrujado no modo off road que faz qualquer estrada virar uma Dom Pedro de Cometa vendo paisagem passar pela janela...
Para LL
c/ carinho
sexta-feira, 11 de julho de 2014
quinta-feira, 3 de julho de 2014
Da criatividade.
-- Ana Clara
-- Ahn
-- Você que é jornalista...
-- Vish... ahm...
-- É criativa...
-- Eitcha, lá vem... hum...
-- Arruma um nome/título/frase/slogan bacana pra isso...
-- Oi?
-- Agora.
-- Quê?
-- É!
-- Ma...
-- Você estudou pra quê?
-- Ahn
-- Você que é jornalista...
-- Vish... ahm...
-- É criativa...
-- Eitcha, lá vem... hum...
-- Arruma um nome/título/frase/slogan bacana pra isso...
-- Oi?
-- Agora.
-- Quê?
-- É!
-- Ma...
-- Você estudou pra quê?
segunda-feira, 14 de abril de 2014
Sobre “Um porto seguro para Elizabeth Bishop” e outras coisas.
Não se engane pelo livro pequeno, tem muita coisa lá dentro que você vai pensar “como ela disse isso assim, tão de sopetão?”. A autora reúne boa parte das angústias das mulheres escritoras. Com o adendo de ser homossexual. Separei uma: fraude.
Ela tem um medo incrível de se revelar uma fraude (até para si), mesmo depois de ganhar um Pulitzer (o que, para mim, é irrelevante). Mas ela resume bem: neste país (no caso, o Brasil) era impossível que descobrissem isso, se caso fosse. Pelo menos não com a influência que ela tinha... ou que a companheira dela, Lota Macedo Soares, tinha. Mulher influente no governo Carlos Lacerda. As duas foram o que hoje poderia se chamar de casadas. Moraram anos no meio do mato de Samambaia, perto de Petrópolis, num sítio, casa, coisa parecida. Daí que, de lá, no meio do nada, no fervor dos anos 60, com o mundo em reviravolta, ela escreve poemas olhando para os passarinhos e ganha o Pulitzer. Fica sabendo do prêmio por telefone. Aí, ela vai para o Rio e, quando faz referência ao golpe de 64, chama de revolução. Desconfortável, no mínimo. Mas, ao longo do texto, tem vários poemas dela. São bons, não conhecia essa poeta americana.
E então que Bishop me lembrou outra artista, cujo nome não vou me recordar, mas estava em exposição naquele museu bonitão de Niterói, desenhado pelo Niemeyer, que visitei no carnaval. Lembro que li um pouco da história dessa tal artista plástica sem nome. Sou do tipo que lê as legendas, os avisos e tenho uma fissura por linhas do tempo. E ela também me trouxe desconforto. O pico da sua obra, segundo a curadoria, se deu nos anos mais duros do regime militar no Brasil. Sem fazer referência alguma a isso. Eram abstrações mais ou menos genéricas, traços coloridos e traziam a incômoda sensação (pelo menos pra mim) de que nada acontecia feijoada no país. Bom, eu digo incômoda agora para quem sabe o que acontecia. Estava claro que não havia ironia na obra. Pelo contrário, ela parecia ter sido muito bem ajudada pela “elite financeira-intelectual” da época. Estudou fora, teve tempo de montar ateliê no Rio, em São Paulo sem nem menção a exílio, resistência, censura ou coisa parecida. Daí que brochei. A obra me parecia vazia, tipo um Romero Britto vintage.
O que Bishop e essa tal artista me encafifaram foi com o fato de terem sido reconhecidas enquanto artistas “em seu tempo” estando completamente alheias a ele. Portanto, de alguma forma, é possível fazer arte assim. Ou a única arte possível é aquela intrinsecamente ligada à transformação e/ou crítica da realidade? Bishop não era totalmente alheia, fez vários poemas sobre o cotidiano carioca, observações agudas sobre o país, mas não necessariamente comprometida ou, talvez até, descomprometida... e daí surja algum traço de relevância em sua obra – diferentemente da tal (para mim odiosa agora) artista do museu de Niterói. Particularmente, confiro mais crédito às obras que tenham comprometimento, que não se descolem da realidade, que cumpram o verdadeiro sentido da arte de aproximar o homem de si mesmo. É claro que, da minha parte, existe um viés político bastante claro. Eu tenho lado. E já me peguei pensando se uma “arte fascista” (leia-se a arte desenvolvida nos anos de fascismo, permitida, não a oficial) pode ser considerada arte. Questões antigas, do tempo de faculdade e mais um pouco, que ainda me inquietam. E só piora. Walter Benjamin me entende.
De volta a Bishop, apesar do desconforto, ela é leitura obrigatória. Se me fez chegar até aqui com tantas indagações, tem seu mérito de livro de leitura instantânea. Para não ser injusta, existem trechos feministas sobre ser lésbica nos anos 60, 70, 80, século 21 com uma passagem genial.
Ela tem um medo incrível de se revelar uma fraude (até para si), mesmo depois de ganhar um Pulitzer (o que, para mim, é irrelevante). Mas ela resume bem: neste país (no caso, o Brasil) era impossível que descobrissem isso, se caso fosse. Pelo menos não com a influência que ela tinha... ou que a companheira dela, Lota Macedo Soares, tinha. Mulher influente no governo Carlos Lacerda. As duas foram o que hoje poderia se chamar de casadas. Moraram anos no meio do mato de Samambaia, perto de Petrópolis, num sítio, casa, coisa parecida. Daí que, de lá, no meio do nada, no fervor dos anos 60, com o mundo em reviravolta, ela escreve poemas olhando para os passarinhos e ganha o Pulitzer. Fica sabendo do prêmio por telefone. Aí, ela vai para o Rio e, quando faz referência ao golpe de 64, chama de revolução. Desconfortável, no mínimo. Mas, ao longo do texto, tem vários poemas dela. São bons, não conhecia essa poeta americana.
E então que Bishop me lembrou outra artista, cujo nome não vou me recordar, mas estava em exposição naquele museu bonitão de Niterói, desenhado pelo Niemeyer, que visitei no carnaval. Lembro que li um pouco da história dessa tal artista plástica sem nome. Sou do tipo que lê as legendas, os avisos e tenho uma fissura por linhas do tempo. E ela também me trouxe desconforto. O pico da sua obra, segundo a curadoria, se deu nos anos mais duros do regime militar no Brasil. Sem fazer referência alguma a isso. Eram abstrações mais ou menos genéricas, traços coloridos e traziam a incômoda sensação (pelo menos pra mim) de que nada acontecia feijoada no país. Bom, eu digo incômoda agora para quem sabe o que acontecia. Estava claro que não havia ironia na obra. Pelo contrário, ela parecia ter sido muito bem ajudada pela “elite financeira-intelectual” da época. Estudou fora, teve tempo de montar ateliê no Rio, em São Paulo sem nem menção a exílio, resistência, censura ou coisa parecida. Daí que brochei. A obra me parecia vazia, tipo um Romero Britto vintage.
O que Bishop e essa tal artista me encafifaram foi com o fato de terem sido reconhecidas enquanto artistas “em seu tempo” estando completamente alheias a ele. Portanto, de alguma forma, é possível fazer arte assim. Ou a única arte possível é aquela intrinsecamente ligada à transformação e/ou crítica da realidade? Bishop não era totalmente alheia, fez vários poemas sobre o cotidiano carioca, observações agudas sobre o país, mas não necessariamente comprometida ou, talvez até, descomprometida... e daí surja algum traço de relevância em sua obra – diferentemente da tal (para mim odiosa agora) artista do museu de Niterói. Particularmente, confiro mais crédito às obras que tenham comprometimento, que não se descolem da realidade, que cumpram o verdadeiro sentido da arte de aproximar o homem de si mesmo. É claro que, da minha parte, existe um viés político bastante claro. Eu tenho lado. E já me peguei pensando se uma “arte fascista” (leia-se a arte desenvolvida nos anos de fascismo, permitida, não a oficial) pode ser considerada arte. Questões antigas, do tempo de faculdade e mais um pouco, que ainda me inquietam. E só piora. Walter Benjamin me entende.
De volta a Bishop, apesar do desconforto, ela é leitura obrigatória. Se me fez chegar até aqui com tantas indagações, tem seu mérito de livro de leitura instantânea. Para não ser injusta, existem trechos feministas sobre ser lésbica nos anos 60, 70, 80, século 21 com uma passagem genial.
sexta-feira, 28 de março de 2014
Não tem ninguém assinando
Livraria movimentada. Lançamento de livro. Para a atendente.
-- Boa noite, por favor, gostaria de levar um livro do Itamar Assumpção
-- É esse do lançamento que está rolando agora?
-- Hum? Por acaso... sim?!
-- Ah, ok, um minuto.
[cara de interrogação]
-- Pronto, só vou fazer a notinha e você passa no caixa.
-- Ok, obrigada.
[atendente chama num canto falando baixinho]
-- Huumm... moça, vem cá...
-- Oi, pois não?
[quase sussurrando]
-- esse lançamento aí...
-- ahn...
-- que você tá levando o livro...
-- sei...
-- vou te contar que não tem ninguém assinando, não...
-- estranho, né?
-- nossa, demais... nunca vi isso...
-- vou te contar... é porque o cara já morreu
-- sério?
-- sim
-- geeeente...
[ela faz cara de interrogação]
-- ...ah, desculpa, é que eu sou nova aqui
-- tudo bem, acontece
Para Renata, com carinho.
-- Boa noite, por favor, gostaria de levar um livro do Itamar Assumpção
-- É esse do lançamento que está rolando agora?
-- Hum? Por acaso... sim?!
-- Ah, ok, um minuto.
[cara de interrogação]
-- Pronto, só vou fazer a notinha e você passa no caixa.
-- Ok, obrigada.
[atendente chama num canto falando baixinho]
-- Huumm... moça, vem cá...
-- Oi, pois não?
[quase sussurrando]
-- esse lançamento aí...
-- ahn...
-- que você tá levando o livro...
-- sei...
-- vou te contar que não tem ninguém assinando, não...
-- estranho, né?
-- nossa, demais... nunca vi isso...
-- vou te contar... é porque o cara já morreu
-- sério?
-- sim
-- geeeente...
[ela faz cara de interrogação]
-- ...ah, desculpa, é que eu sou nova aqui
-- tudo bem, acontece
Para Renata, com carinho.
domingo, 9 de março de 2014
Da série: Quando o cara insiste (ou “Estereótipo: ame-o ou deixe-o”)
-- Então você é lorenense...
-- Loreniana não soa muito bem. Fato.
-- Você falou que é perto de onde mesmo? Aparecida de quê?
-- Do Norte.
-- Ah! Da Basílica?
-- Isso.
-- Que tem a cúpula?
(até onde eu sei, não pensaram em tirar, porque não dá dinheiro e tals)
-- Essa mesmo...
-- Bacana! Você ia muito lá?
(me diz um lugar onde até o papa foi e a rafameia provinciana dos arredores não iria)
-- Sim, claro
-- Que massa. Agora até tem um shopping dentro...
-- An-hãm... faz mais de dez anos...
-- E Pedreira? Você disse que sua mãe e tals... onde fica?
-- Perto de Jaguariúna, no circuito das ág...
-- Ah! Onde tem o rodeio?
-- É. (pausa para a respiração profunda). O rodeio.
-- Cara, é muito famoso!
-- Ôôô
-- Você já foi?
(me diz um universitário campineiro que sobreviveu ao rodeio de Jaguariúna)
-- Sim, claro.
-- Tem até aquela música...
(não, please, god, no, ele não vai cant...)
-- Jaguariúna quer rodeio... dá, dá, dá...
(resquícios de dignidade rolaram mundo afora)
-- Ah, e esse sotaquinho de mineira, hein, aposto que comeu muito pão de queijo em BH
(esse que tá na minha mão vai voar na sua cara daqui a pouco)
-- Sim, a cozinha mineira é bastante comple...
-- Aposto que você foi muito bem recebida. O povo mineiro é muito hospitalei...
-- Sim, inclusive os profissionais com quem trabal...
-- E lá só tem mulher bonita, né. Não te incomodou?
(cê jura que quer saber quem me incomoda?)
-- Não, não. Pelo contrário, tenho muitas amizades por lá.
-- Cara, e ainda tem Paulínia! A refinaria, o cinema...
(junta tudo e fica uma tela lambuzada de diesel nessa sua fuça, infeliz)
-- Pois é, mas tem problemas graves de uso de dinheiro púb...
-- Não, mas agora você é chique, ta na capital!
(ai...)
-- Me conta: você já ficou presa no metrô quantas vezes? Já saiu andando pelos trilhos? O Haddad vai fazer faixa de ônibus até minha casa?
(só se for pra passar o busão da minha havaiana de pau queimandos nessas varetas que cê chama de perna)
-- É, a política de transporte público está em pauta na cidade e...
-- Espera. Agora, vem cá...
-- Ahn...
-- Vamos falar sério
(finalmente, há esperança)
-- Você que passou por tantos lugares...
-- Hum...
-- Me fala a ver-da-de
(muito filosófica essa questão, mas prossigamos)
-- Claro, diga.
-- Quem bebe água de Campinas vira gay mesmo?
-- Loreniana não soa muito bem. Fato.
-- Você falou que é perto de onde mesmo? Aparecida de quê?
-- Do Norte.
-- Ah! Da Basílica?
-- Isso.
-- Que tem a cúpula?
(até onde eu sei, não pensaram em tirar, porque não dá dinheiro e tals)
-- Essa mesmo...
-- Bacana! Você ia muito lá?
(me diz um lugar onde até o papa foi e a rafameia provinciana dos arredores não iria)
-- Sim, claro
-- Que massa. Agora até tem um shopping dentro...
-- An-hãm... faz mais de dez anos...
-- E Pedreira? Você disse que sua mãe e tals... onde fica?
-- Perto de Jaguariúna, no circuito das ág...
-- Ah! Onde tem o rodeio?
-- É. (pausa para a respiração profunda). O rodeio.
-- Cara, é muito famoso!
-- Ôôô
-- Você já foi?
(me diz um universitário campineiro que sobreviveu ao rodeio de Jaguariúna)
-- Sim, claro.
-- Tem até aquela música...
(não, please, god, no, ele não vai cant...)
-- Jaguariúna quer rodeio... dá, dá, dá...
(resquícios de dignidade rolaram mundo afora)
-- Ah, e esse sotaquinho de mineira, hein, aposto que comeu muito pão de queijo em BH
(esse que tá na minha mão vai voar na sua cara daqui a pouco)
-- Sim, a cozinha mineira é bastante comple...
-- Aposto que você foi muito bem recebida. O povo mineiro é muito hospitalei...
-- Sim, inclusive os profissionais com quem trabal...
-- E lá só tem mulher bonita, né. Não te incomodou?
(cê jura que quer saber quem me incomoda?)
-- Não, não. Pelo contrário, tenho muitas amizades por lá.
-- Cara, e ainda tem Paulínia! A refinaria, o cinema...
(junta tudo e fica uma tela lambuzada de diesel nessa sua fuça, infeliz)
-- Pois é, mas tem problemas graves de uso de dinheiro púb...
-- Não, mas agora você é chique, ta na capital!
(ai...)
-- Me conta: você já ficou presa no metrô quantas vezes? Já saiu andando pelos trilhos? O Haddad vai fazer faixa de ônibus até minha casa?
(só se for pra passar o busão da minha havaiana de pau queimandos nessas varetas que cê chama de perna)
-- É, a política de transporte público está em pauta na cidade e...
-- Espera. Agora, vem cá...
-- Ahn...
-- Vamos falar sério
(finalmente, há esperança)
-- Você que passou por tantos lugares...
-- Hum...
-- Me fala a ver-da-de
(muito filosófica essa questão, mas prossigamos)
-- Claro, diga.
-- Quem bebe água de Campinas vira gay mesmo?
Da série: Perguntas casuais difíceis de responder
-- De onde você é?
-- Onde eu nasci?
-- Sim.
-- Em Lorena.
-- Onde fica?
-- Interior de São Pa...
-- Ué, não é Minas?
-- Não. É perto de Apareci...
-- Mas e esse sotaque?
-- É que morei muitos anos em Belo Horizonte.
-- Aaah, tá, mas então seus pais são de Lorena...
-- Não, agora eles moram em Paulínia...
-- Perto de Lorena?
-- Não, é perto de Campinas, onde eu me formei...
-- Ah, eles te acompanharam quando você foi fazer faculdade?
-- Não. Eles são separados. Moravam juntos, em Paulínia, quando eu era criança...
-- Mas você não nasceu em Lorena?
-- Sim, mas passei a infância em Paulínia e Campinas...
-- Ah, por isso você fez faculdade em Campinas, já estava lá mesmo e...
-- Não, voltei pra Lorena com uns nove anos e fiquei lá até o Ensino Médio...
-- E por que foi estudar em Campinas?
-- Porque minha mãe morava em Pedreira.
-- Pedreira? Não era Paulínia?
-- Sim. Mas Pedreira é perto de Campinas também.
-- Ah, ta. O que ela foi fazer lá?
-- Trabalhar.
-- E por que você não foi junto?
-- Porque eu estudava em Lorena... ela foi pra Osasco, depois pra Pedreira.
-- E Minas? Foi depois de formada?
-- Sim, fui trabalhar.
-- Mas sua família é de onde?
-- Da mãe?
-- Sim.
-- De Lorena.
-- E do seu pai? De Paulínia?
-- Não. De Bragança Paulista.
-- E os dois moram na mesma cidade?
-- Sim.
-- Ah, estão juntos.
-- Não.
-- Eita, mas onde você mora agora?
-- São Paulo.
-- Primeira vez que mora na capital?
-- Não.
-- Ok, desisto. Vou fazer mais fácil: Chuvinha chata essa hoje, não?
-- É... ... huuumm... me dá um minutinho, preciso ver se entrou em estado de atenção.
-- Onde eu nasci?
-- Sim.
-- Em Lorena.
-- Onde fica?
-- Interior de São Pa...
-- Ué, não é Minas?
-- Não. É perto de Apareci...
-- Mas e esse sotaque?
-- É que morei muitos anos em Belo Horizonte.
-- Aaah, tá, mas então seus pais são de Lorena...
-- Não, agora eles moram em Paulínia...
-- Perto de Lorena?
-- Não, é perto de Campinas, onde eu me formei...
-- Ah, eles te acompanharam quando você foi fazer faculdade?
-- Não. Eles são separados. Moravam juntos, em Paulínia, quando eu era criança...
-- Mas você não nasceu em Lorena?
-- Sim, mas passei a infância em Paulínia e Campinas...
-- Ah, por isso você fez faculdade em Campinas, já estava lá mesmo e...
-- Não, voltei pra Lorena com uns nove anos e fiquei lá até o Ensino Médio...
-- E por que foi estudar em Campinas?
-- Porque minha mãe morava em Pedreira.
-- Pedreira? Não era Paulínia?
-- Sim. Mas Pedreira é perto de Campinas também.
-- Ah, ta. O que ela foi fazer lá?
-- Trabalhar.
-- E por que você não foi junto?
-- Porque eu estudava em Lorena... ela foi pra Osasco, depois pra Pedreira.
-- E Minas? Foi depois de formada?
-- Sim, fui trabalhar.
-- Mas sua família é de onde?
-- Da mãe?
-- Sim.
-- De Lorena.
-- E do seu pai? De Paulínia?
-- Não. De Bragança Paulista.
-- E os dois moram na mesma cidade?
-- Sim.
-- Ah, estão juntos.
-- Não.
-- Eita, mas onde você mora agora?
-- São Paulo.
-- Primeira vez que mora na capital?
-- Não.
-- Ok, desisto. Vou fazer mais fácil: Chuvinha chata essa hoje, não?
-- É... ... huuumm... me dá um minutinho, preciso ver se entrou em estado de atenção.
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
Engole esse choro (carta a um amigo)
Ei, amigo, estava pensando esses dias sobre aquele lance de engolir choro. A identificação foi tanta que tenho certeza sermos de uma geração de engole-choros. Quase todos os meus amigos, por quem tenho algum respeito intelectual, político ou afetivo, passaram por isso. Se fosse hoje, terapeutas e psicólogos ficariam discorrendo sobre o quão “coitados” e “oprimidos” somos; como nossos pais foram uns irresponsáveis por não “entenderem” o quão especial são seus filhos mimados e essa papagaiada toda que – juro ter dó muitas vezes – incutem nesta geração posterior à nossa que se acha tão além do bem e do mal. Se existe algum prejuízo em engolir essa banana de dinamite interna que explode a todo momento em nosso ser (o que não significa, claro, que não nos afeta, mas nos faz minimamente conter as lágrimas), isto nos faz enxergar o outro ou a conjuntura em que estamos inseridos. Explico-me. Somos frutos de uma geração que juntou a década perdida (80) com a década desperdiçada (90) e uma crise econômica cretina que afetou tudo até nossa cadeia e gosto alimentares dirá nossa subjetividade. Somos filhos de mães e pais que não sabiam quanto ia custar o pão no dia seguinte, que dependia do programa de governo daquele corrupto safado que dava leite, mas não aumentava salário, nem garantia educação, transporte, a mínima condição de sobrevivência. Nos fazer engolir o choro talvez fosse a melhor forma de nos preparar para a vida, para a selva, para aquela inflação que poderia fazer tudo ficar pior do dia pra noite, para aquele momento de ver o próprio filho dormindo e ter que sustenta-lo sem ajuda do pai, da família, de ninguém... se não apenas, dos próprios vizinhos que passavam tanta necessidade quanto a gente. É essa certeza que faz nossos draminhas cotidianos – nosso pé na bunda amoroso, aquele(a) cretino(a) que não entende nosso jeito de amar, o chefe opressor, o salário baixo e a jornada desgastante – ficarem pequenos, porque aprendemos a olhar para o lado. Saímos de nosso casulo laboral e quando pensamos em chorar, vemos pais de família, mães com seus filhos, trabalhadores braçais e pessoas que, está na cara, têm dramas e vidas muito mais fodidas do que a nossa ou, pior, uma vida parecida com a que tínhamos. E se o choro insiste em chegar acima da garganta, nos sentimos culpados. Não é aquela mea-culpa de classe média recém-ascendida que dá esmola aos pobres; é uma culpa interna, dolorida, da certeza que um dia a vida já foi pior, você superou e, agora, pra quê? Pra quê? Pra quê chorar? Não tem nada a ver com parecer “fraco” ou “forte”, isso nunca esteve em pauta; chorar, para os engolidores de choro, tem a ver com a capacidade de enxergar ou não a conjuntura que estamos inseridos. Mas é claro que não somos um monstro de ferro, uma versão ambulante de um rochedo do norte. E é por isso que, na maior parte das vezes, choramos sem motivos, sem ninguém ver, trancados em algum lugar. Porque se não há razão específica, não há termos de comparação, é como se fosse um choro de conjuntura, por tudo, mas que ninguém pode ver. Acontece raras vezes, afinal só acontece quando pessoas fortes (ou nem tanto) chegam no limite. Talvez por tudo ou por nada, porque aí tudo bem, sem drama.
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