sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Das mina.

-- Peraí, essa "mina" que você tá falando aí é sua namorada?
-- É, meu! Tô te falando... então... aí ela foi lá e...
-- Pera, vc chama sua namorada de mina?
-- Sim, minha mina. Normal.
-- Ah, tá.. "sua mina". Então se chamar de minha mina é sério?
-- Opa, chegar noZamigo e chamar de minha mina é mais sério que noivar.
-- Huum. Entendi. E a peguete assim, ocasional, chama o quê?
-- Uma mina.
-- Ahn...
-- Tipo... saí com uma mina aê, é sair com qualquer uma. Saí com a minha mina, é sair com a namorada.
-- Ah, tá. E amiga é o quê?
-- As mina.
-- Porque geralmente é mais de uma. Saí com as mina.. é um grupo de mulheres, meio genérico. Pode ser amiga, colega do trabalho e tals...
-- Ah, sim, tipo o coletivo de mina...
-- Isso, mas depende. O coletivo de "minhas mina" é "as patroa".
-- Oi?
-- Por exemplo: eu com meu grupo de amigos, se vamos nos referir às nossas mina, às nossas namoradas, falamos: "será que as patroa vão aceitar?". Mas quando elas não estão perto, se não é as mina mesmo...
-- hhhmmmmm...


Porque quem entende de Mina é São Paulo.

Dos hábitos da leitura adquiridos.

À exceção dos romances, a principal evidência que um livro me interessa absurdamente é o fato de não conseguir lê-lo sem um lápis na mão. Vezo universitário, mini-loucura particular ou ambos, a possibilidade de não ter condições de ressaltar trechos que considero incríveis, interessantes ou de uso posterior me aflige bastante. O resultado não é muito bom em termos de futuro a longo prazo, pois acumulo livros rabiscados, grifados, com notas próprias e afins, que podem incomodar um possível leitor a posteriori. Em tempo, o título da vez é "Clases de literatura", do Cortazar, transcrições completas de aulas que ele ministrou nos EUA. Estou fascinada com a obra, em fase de paixão total.

Prova de amor

-- Mas eu tenho certeza que ele me ama.
-- Amiga, isso é coisa séria. É o seu futuro. Acho ele um pouco imaturo e...
-- Ele dá pause no videogame pra falar comigo!
-- ...
-- ...
-- CASA! AGORA!

Angústia moderna

Não deve ser só a minha, mas é algo que, muitas vezes, confesso, não me deixa dormir. Ao assistir e ouvir as novas ondas de músicas, principalmente, de funk, não sei, sinceramente, onde começa o meu preconceito e onde termina minha capitulação. 
Abomino o comportamento preconceituoso diante de quem não entende a manifestação da cultura popular, de quem enquadra o conceito de "bom" em fôrmas pré-fabricadas de uma elite tão ignorante quanto os próprios padrões que impõe. 
Abomino a onda pseudo-intelectual, pintada de che-guevarismo, que só é boa a música alternativa -- a new wave é a argentina --, a MPB feita na ditadura, os aros grossos dos indies, aquela chatice de olhares blasé, frases soltas e efeitos instagram. Inclusive essa turma se acha o contraponto à primeira, o que não o é definitivamente -- só é outra fôrma, mas com poá vermelho e filtro laranja. 
Feminista que sou, também procuro entender que tipo de discurso as mulheres recorrem para denunciar um mundo de opressão, principalmente, aquelas que sofrem a dupla, incluindo a de classe. E torna-se óbvio que aprofundar as contradições do machismo -- reforçando "ao revés" o preconceito -- pode causar um efeito de choque contraditório. 
Porém não posso negar que há um limite. Não sei qual é. Mas algo que diz, que sim, o há. Eis aí a minha (ou a nossa, acredito que mais pessoas devem sentir isso) angústia. Assistir mulheres fazendo o "quadradinho de 8", letras feitas a partir de criado-mudo, repetições sem sentido e a sensação de que "qualquer coisa" vira sucesso é angustiante. Tão angustiante quanto ver que qualquer coisa melódica com um fundo de violão, um triângulo, uma rima pobre (ou sem rima mesmo, mas pobre) e uma cara blasé explode no meio que se auto-denomina intelectual. Tão angustiante quanto ver que qualquer patricinha do cabelo colorido cantando coisas em inglês, tomando porre e dando pt com a imprensa de plateia explode no meio pré-adolescente e por aí vai. A tragédia fica mais evidente no funk por várias questões -- pessoais, sociais, morais, políticas, econômicas --, mas o quadro geral é decadente. Desesperador. 
Uma análise séria partiria do princípio que o sistema capitalista é maquiavélico, portanto se aproveita do que é "essencialmente" popular, digere e devolve como lixo cultural. Mas, sabemos, as coisas não são lineares. Elas são cíclicas e contraditórias. E é onde eu me pergunto: É possível avaliar o funk sem ser preconceituosa? Ou melhor, é possível ter um olhar crítico sobre esse fenômeno sem carregar o vício acadêmico, o preconceito social, os vezos morais? Como analisar a qualidade de um fenômeno musical, ainda em seu tempo, se afastando "conceitualmente" dos valores dele?

Queria ver se fosse em bairro rico...

Aí você liga a TV e ouve do repórter: "queria ver se fosse em bairro de classe média se a polícia saia atirando desse jeito". Súbito de consciência? Excesso de doRgas nos bastidores? O mundo melhorou? As pessoas receberam a luz? Tomaram pílula vermelha? Não. Não mesmo. 
Aí você se pergunta que tipo de interesse está por trás da história desse tal bandido matemático. Porque, come on, esse argumento do "queria ver se fosse em bairro rico" serve para tudo neste país. Tudo mesmo. É cotidiano. Para quem sofre com a violência, a desigualdade e o preconceito de classe todo dia, é como se o repórter falasse: "quero ver todo mundo comer arroz com feijão no almoço". Mas é claro que aquilo dito assim, amiúde, pelo maior conglomerado de comunicação do país, aguça a curiosidade. 
Como assim não justificaram uma ação que não saiu um civilzinho morto sequer e conseguiram matar um bandido procurado? Quantos milhões de ações semelhantes, similares, ipis is literis, não foram feitas e defendidas e justificadas? O resultado disso, infelizmente, está espalhado pela minha timeline. Com um bando de gente, achando "rebelde" falar mal da Globo, usando um preceito, diria, até malufista de lidar com a violência no país. E isso acontece justamente quando a empresa -- por razões que me coçam as entranhas saber -- se aproxima minimamente de um debate (superficial, mas ainda um debate) sobre a atuação da polícia. 
Ninguém é inocente. Não acredito que a empresa tenha avançado, é claro que há interesses escusos, mas é bizarro. Ou não. Ou fui eu que fiquei muito tempo offline da TV e perdi alguma coisa nos últimos 10 anos. Agora que voltei, levo um susto atrás da outro, além da verossimilhança sem noção da Gloria Perez.

A saga do presente do dia dos pais.

Na livraria Cultura, do Iguatemi, gigante e lotada.
-- Ele é músico.
-- Ah, tá. Tem uns livros de banda aqui...
-- Não, não. Ele é mais, hum... clássico...
-- Música clássica? Tem uns guias interessantes aqui...
-- Não, não. Ele até gosta, mas “guia” e “mini história da música x, y, z”... é... acho que ele já passou dessa fase... [em pensamento: há muito tempo]
-- O que ele faz?
-- Ele toca violão, mas agora estuda percussão. Já teve uma banda de chorinho em Campinas, tocou violoncelo e piano, foi banjista uns 10 anos em uma jazzband, ganhou vários prêmios fazendo arranjo para teatro e...

[Atendente faz cara de assustada]

-- Ok. Agora ele dá aula de percepção musical. É professor.
-- Percepção musical? Que legal! Tem um livro chamado “Alienações Musicais”. Ele vai adorar, me acompanhe, por favor.

[Vamos até o setor. Reviramos tudo e nada do livro.]

-- Me dá só um minutinho.

[...]

-- Fui lá no sistema. Só tem UMA unidade na livraria. Se não está aqui no setor, pode estar na mão de algum cliente ou...

[Ela dá um sorriso amarelo]

-- Ou...?
-- Em qualquer lugar da livraria.
-- Oi?

[Faço um panorama com o olhar]

-- É. Vamos ter que procurar. Há três dias, ele foi bipado nas maquininhas de checagem de preço lá da frente. Alguém deve ter tirado lugar e não deve ter colocado de volta.
-- Mas faz três dias. Será que algum funcionário...
-- Muito provavelmente não. Desde as férias, estamos muito sobrecarregados. Você está com muita pressa?
-- Não, não. Vamos procurá-lo.
-- Óh, ele é gordinho, tamanho médio e coloridinho.
-- Ah, claro!
[Nos dividimos e saímos à procura. 20 minutos depois, eu e ela nos reencontramos e nada. Mais dois atendentes se juntam a nós e começam a conversar entre eles. Eu só escuto.]
-- Já procurei até no setor psiquiatria e neurologia.
-- Esse tal de Oliver Sacks também já escreveu sobre tudo.
-- Mas tem “musicais” no título, não é possível que alguém tenha confundido.
-- Ah, mas começa com “alienações”, vai que alguém não leu o título até o fim e foi parar em psiquiatria.
-- Tudo bem, gente, não está nem um, nem no outro. Mas ele está aqui, em algum lugar. Vamos encontrá-lo.

[ Eu, já meio sem graça por ter mobilizado tanta gente em um dia tão movimentado, preparava um discurso de super agradecimento, dizendo que meu pai também ficaria feliz se eu  levasse o “Solo”, de memórias do César Camargo Mariano, quando o quarto atendente intervém]
-- Encontrei!!!
-- Graças a Deus! Eu sabia que a iríamos conseguir!! Olha, senhora, achamos o seu livro.

Também #ExisteAmoremCPS

sábado, 9 de novembro de 2013

Mais de um.

Depois de boas risadas com o Ítalo Calvino e as metades do Medardo, fui parar na saga de As Brumas de Avalon. Não que eu tenha abandonado as aulas do Cortazar. É que gente meio desvairada com livro precisa estar com duas (ou até três) leituras em andamento. Depende do humor, da bolsa que carrega e dos transportes coletivos utilizados na semana.