sexta-feira, 8 de novembro de 2013
Diário de bordo. Dor de amor.
Conheci duas advogadas. Uma russa no hostel e
outra bahiana na Torre de Belém. Se tem uma língua universal além do inglês, se
chama dores de amor. Soube de todas, das duas, e elas das minhas, claro. Hoje
comi o típico bacalhau português com um vinho que é da região sul de Lisboa,
não lembro exatamente onde, mas não quis tomar do Alentejo que já me pareceu
bem batido entre os brasileiros. Era aniverário da
advogada bahiana, aproveitamos que conhecemos um casal brasileiro com duas
crianças de JF na mesa ao lado, e, claro, fizemos aquele fuzuê "de
anniversaire" tipicamente tupiniquim. Adivinhem quem impulsionou o
parabéns coletivo em um restaurante relativamente phynno no coração de Lisboa
com uma vela acesa em cima de um pastel de belém? Isso porque eu a conhecia há
apenas três horas. Hoje o dia foi beeeem cansativo. Amanhã pego um busão para
Porto, às 7 da matina.
Diário de bordo. Lisboa.
Não sei se vou ter tempo nem disposição para
manter alguma frequência, mas vamos lá. Cheguei pagando de portuguesa nata
falando inglês. Ao descer no aeroporto, ensinei dois ingleses a passar pela
catraca do metrô. Engana-se quem pensa que a Europa é o paraíso do Wi-fi.
Lisboa, pelo menos, não. Tudo trancado e o que era livre tem o sinal horroroso.
Com um ouvido bem apurado e alguns conhecimentos básicos de
português de Portugal nem parece que você desembarcou em outro país. Parece
somente que ampliaram a zona sul das grandes capitais brasileiras por toda
extensão urbana. O fim de tarde foi lindo e receptivo. Sobre pontos turísticos
e histórias daqui, deixa que eu conto numa mesa de bar. Por enquanto, vou
falando só de curiosidades cotidianas.
Carnaval em BH
Despedi do carnaval mineiro com Clube da
Esquina, no Bloco da Esquina, e Beatles, na Alcova Libertina. Não poderia ter
repertório melhor e tão bem contextualizado na maior festa popular brasileira.
É a primeira vez na vida que cogito indicar o carnaval de BH para alguém. Pior:
cogito até voltar ano que vem, se possível for. E quem é da terrinha do pão de
queijo sabe o que isso significa: a disputa direta pelo uso do espaço público com a prefeitura.
Oferecer banheiro público e policiamento para organizar a caminhada é
obrigação. Não deve, nunca, ser encarado como favor. O esforço da manutenção da
"independência" dos blocos também deve ser ressaltada. A mudança do
itinerário do "Então Brilha" que seguiria para a avenida Brasil, mas
optou por terminar na Raul Soares é resultado de um início promissor de
tradição do carnaval belorizontino. É isso que Minas precisa levar de exemplo.
Música de qualidade, folia liberada, politizada, independente, sem preconceito,
sem machismo e sem barbárie. Bloco por bloco para andar pelas ruas cercados,
segregados, patrocinados, tocando música eletrônica com ingresso trocado por
quilo de alimento é regra. Tem em qualquer lugar, qualquer esquina, qualquer
rincão com folia neste país.
Amar é mobilidade.
"Tu eres la autovia liberada", Perota
Chingó.
Em tempos de mobilidade urbana, é a melhor metáfora do mais alto grau de amor. Comove mais que flores, rosas, dar o céu, o mar, a lua e blá.
Em tempos de mobilidade urbana, é a melhor metáfora do mais alto grau de amor. Comove mais que flores, rosas, dar o céu, o mar, a lua e blá.
A vizinha e o marido.
Em clima de despedida
lenta e gradual, mais gradual do que lenta, encontro com a senhora, minha
vizinha:
--... que pena você ir embora... vou sentir sua falta...
-- Pois eh... foi um tempo bacana que passamos próximas e...
-- E o namorado?
-- Ah, nem tenho, então eh tranqui...
-- Mas eu vi um rapaz aí outro dia.
-- Não, não. Era só meu amigo.
-- Tá, esse eu sei que é seu amigo. Eu estou falando do outro.
-- Ah, então, esse também é. Inclusive é amigo desse.
-- Mas teve um outro também que estava aí na porta certo dia.
-- Não, não, esse aí é meu primo.
-- Entendi... Olha, se você quiser, eu tenho um livro muito bom que ensina a pedir e conseguir um marido. Você vai gostar! Vou te traz...
-- Não, não, obrigada, não precisa se incomodar, eu já estava de saí...
-- Faço questão! Você merece. Eh uma menina direita, centra...
-- Não, por favor, não preci...
-- Fica aí que eu vou lá buscar e já volto.
--... que pena você ir embora... vou sentir sua falta...
-- Pois eh... foi um tempo bacana que passamos próximas e...
-- E o namorado?
-- Ah, nem tenho, então eh tranqui...
-- Mas eu vi um rapaz aí outro dia.
-- Não, não. Era só meu amigo.
-- Tá, esse eu sei que é seu amigo. Eu estou falando do outro.
-- Ah, então, esse também é. Inclusive é amigo desse.
-- Mas teve um outro também que estava aí na porta certo dia.
-- Não, não, esse aí é meu primo.
-- Entendi... Olha, se você quiser, eu tenho um livro muito bom que ensina a pedir e conseguir um marido. Você vai gostar! Vou te traz...
-- Não, não, obrigada, não precisa se incomodar, eu já estava de saí...
-- Faço questão! Você merece. Eh uma menina direita, centra...
-- Não, por favor, não preci...
-- Fica aí que eu vou lá buscar e já volto.
MPB
Ouvir MPB, mais
especificamente, Elis Regina, é como uma madeleine auditiva. Fecho os olhos e,
em segundos, vou parar em algum sábado da minha pré-adolescência. Minha mãe
arrumava a casa, ligava o som no talo e cantava aos berros as canções da guria
como se fora brincadeira roda. Memória.
Então você cria coragem...
Então você cria coragem
nesta chuva e vai até à banca de todos os domingos comprar seus mesmos três
jornais e duas revistas. O vendedor, velho conhecido e muito simpático, te
saúda com a mesma pergunta protocolar semanal aparentemente despretensiosa:
-- Bom dia, Ana! Tudo bem com você?
E você, automaticamente, responde:
-- Sim, querido. Tudo bem, graças a Deus!
Ele pára tudo o que está fazendo e diz enfaticamente:
-- Não, Ana. Não está tudo bem com você. Hoje, não.
Pausa dramática.
O silêncio instaura-se.
Em frações de segundo, eu me questiono: "O que ele quer que eu diga ou faça?"
a) peça um abraço, comece a chorar e conte a minha vida desde que eu nasci.
b) solte um "ai, amiga, é mesmo... só você pra me entender"
c) pergunte: "você tem alguma revista com dicas de maquiagem para fazer cara de 'tudo de bem'?"
d) procure o espelho mais próximo para me certificar que deu tudo certo entre a hora que eu levantei da cama e cheguei até à banca.
Então, me mirei em busca de uma revista e continuei:
-- Ah, nada, muito cansaço, só isso. Semana que vem, eu melhoro, prometo.
-- Bom dia, Ana! Tudo bem com você?
E você, automaticamente, responde:
-- Sim, querido. Tudo bem, graças a Deus!
Ele pára tudo o que está fazendo e diz enfaticamente:
-- Não, Ana. Não está tudo bem com você. Hoje, não.
Pausa dramática.
O silêncio instaura-se.
Em frações de segundo, eu me questiono: "O que ele quer que eu diga ou faça?"
a) peça um abraço, comece a chorar e conte a minha vida desde que eu nasci.
b) solte um "ai, amiga, é mesmo... só você pra me entender"
c) pergunte: "você tem alguma revista com dicas de maquiagem para fazer cara de 'tudo de bem'?"
d) procure o espelho mais próximo para me certificar que deu tudo certo entre a hora que eu levantei da cama e cheguei até à banca.
Então, me mirei em busca de uma revista e continuei:
-- Ah, nada, muito cansaço, só isso. Semana que vem, eu melhoro, prometo.
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