Quando li a contra-capa, decidi ler por despeito. Imagina: um argentino, portenho, jornalista, vem pro Rio, nos anos 30, e se propõe a escrever crítica e causticamente sobre a terrinha. Para piorar, é a primeira vez que o camarada sai de sua República da qual tanto se vangloria e cai em um país que aboliu a escravatura há poucas décadas. E ainda, me atesta o editor, essas crônicas reunidas são inéditas, portanto tal narrativa ainda não tinha sido apresentada até então.
/o\
Em tempo, já tinha definido ler algo do Arlt por indicação do Cortazar, em "Clases de Literatura" e por um interesse geral-futuro-imaginário de me aprofundar em contos latino-americanos, mas isso é outro papo.
Esperava o fim dos tempos.
Cóleras de raiva.
E não aconteceu.
Nas crônicas, é fácil distinguir as críticas de caráter coletivo e social mais profundas daquelas de escolhas, gostos e hábitos pessoais -- como optar por não visitar museus , não se interessar por "construções coloniais" e dissertar horas sobre o calor impiedoso da antiga capital do Império.
Bueno.
Arlt faz a curva de aprendizagem da sociedade brasileira típica do estrangeiro: se enternece com a amabilidade e a sociabilidade dos nativos; impressiona-se como as crianças são bem-educadas, como as mulheres andam na rua (segundo ele, mais "livres" e menos "oprimidas" que as portenhas), como os negros são "integrados" ao convívio, até captar as matizes perversas e cruéis tão caras ao país.
Racismo.
A primeira nuance é sutil como um elefante na cristaleira: o tempo de permanência nos cafés. Como bom portenho, o autor frequenta esses lugares e nota que alguns podem ficar mais tempo do que outros. Negros entram, tomam café e, se demoram, são retirados. Arlt escreve não com um olhar crítico e piedoso sobre o racismo, pelo contrário, ele mesmo é racista extremado, não do tipo que reivindica o preconceito, mas do tipo que externaliza, sem meias palavras. Não é um racismo à brasileira: velado, tímido e lancinante; é declarado e ponto.
Grone.
Esse termo me custou uma rápida pesquisa que o tradutor do celular não resolveu. É uma expressão pejorativa, típica dos portenhos, oriunda de um hábito de trocar as sílabas (ne-gro >> gro-ne) para dizer sem dizer. Mesmo, digamos, com toda essa convicção e elaboração sobre a inferioridade de outra raça, Arlt se viu assombrado e exasperado quando descobriu, já na última semana de viagem, que o Brasil tinha abolido a escravidão há apenas 42 anos.
"Então quer dizer que aquela velha negra...? / Sim, ela foi escrava / Aquele senhor negro que tece redes para vender tamb.../ Sim, ele também/ Aquele senhor distinto, bem-afeitado dirigindo um carro/ Sim, era dono de escravo".
Choque.
O argentino também se horrorizou com a diferença nada sutil entre "castigar" e "maltratar"; os valores de cada mercadoria; o papel dos feitores e essas idiossincrasias tão conhecidas em nossos livros de História. Sim, ele, racista declarado, chocou-se. Durmam com essa.
Particularmente, Arlt pode até ser um grande escritor e cronista, com prêmios e tudo mais, mas não passa de um jornalista medroso e medíocre. Ele chega a aventar uma entrevista, um bate-papo qualquer, com um desses negros anciãos espalhados pelas ruas. Mas por medo ou preconceito ou ambos, não o faz: "acha melhor não". Simplesmente.
Ócio e labuta.
A crítica mais contumaz e eloquente é sobre o nível cultural da classe trabalhadora. Arlt espanta-se que existam apenas três teatros para dois milhões de pessoas. Não há bibliotecas operárias, coletivos culturais de trabalhadores e outras agremiações que permitam o entretenimento e o enriquecimento espiritual da classe. Ele mesmo aprendeu que aqui vive-se para ganhar "el feyon" e o resultado é uma cidade linda, porém tediosa, com uma classe média limitada e uma polícia extremamente opressora.
85 anos depois, de minha parte, só tendo a rever o tédio.
Yungar
Outro termo que me custou mais pesquisa, porque o tradutor não resolveu. Arlt o usa para todos: mulheres, negros (ainda mais os negros), jornalistas e afins. Encontrei a referência do termo em inglês "slog away": algo como trabalhar muito durante muito tempo. Livre tradução: ralar pacas.
Mulheres.
Creiam ou não, Arlt não sai exaltando as "belezas naturais da mulher brasileira". Ao falar sobre o tema, diz que aqui as mulheres são até "mais livres" que as portenhas: andam à noite pelas ruas, não sofrem tanta "abordagem" e parece, segundo ele, que não tem tanta resignação com seu lugar na sociedade. Até entendo, por certa experiência própria no século seguinte.
O machismo dos latinos, assim como o racismo dos portenhos, é muito mais explícito, mas não menos cruel. Como não há um interesse específico, Arlt não capta nuances, apenas destila frases e concepções machistas clássicas sobre mulheres decentes e não decentes e voi lá.
Por fim, não há um argentino recalcado falando mal do Brasil. Há um estrangeiro muito capaz que capta impressões de um país que mudou muito e pouco ao longo dos séculos. Outras notas mais gerais, como já disse, são de interesses mais pessoais e características peculiares.
Há passagens divertidas, inclusive sobre uma entrevista que ele concede a um jornal brasileiro e, quando lê a matéria, vê uma aspas não dita por ele com um enaltecimento de Castro Alves. Ele se indigna: "Eu sei lá quem é Castro Alves, não me interessa saber, como podem dizer que eu disse isto?".
Pois é, Arlt, bem-vindo.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015
quarta-feira, 5 de novembro de 2014
Grande Tucanistão Veredas #1
Eu e uns amigos estávamos em um bar.
Começou a chover.
Forte.
Por mais de vinte minutos.
O homem da mesa ao lado levantou-se abruptamente...
e fez o que todo paulistano sensato faria:
sacou o celular para registrar.
Nunca se sabe.
E a vida segue em Grande Tucanistão Veredas.
Começou a chover.
Forte.
Por mais de vinte minutos.
O homem da mesa ao lado levantou-se abruptamente...
e fez o que todo paulistano sensato faria:
sacou o celular para registrar.
Nunca se sabe.
E a vida segue em Grande Tucanistão Veredas.
Drama 24 de dezembro
-- Filha, que saudades! Estava te esperando...
-- Eu também, mãe! Que linda! Me esperando... praaa...?
-- Ir ao shopping!
-- Oi?
-- É, oras.
-- Cê jura?
-- Sim.
-- Hoje?
-- É.
-- Véspera de Natal?
-- An-ham.
-- Qual?
(Ainda refletindo na pergunta sobre a livre escolha de qual barbárie enfrentar)
-- Dom Pedro
(Calafrio na espinha)
-- Fazer o quê?
-- Comprar seu presente.
-- Meu? Só meu?
-- Sim, não quis comprar sem a sua companhia.
(Olha o gooolpe)
-- Sério?
-- É...
(Eu já manjada dos paranauê maternal)
-- Deixa pra depois então, meu maior presente é a sua companh...
-- Ah... mas também faltou ainda a lembrancinha da fulana, beltrana...
(bingo)
-- Mas...
-- Vamos enfrentar isso juntas.
(Como uma espartana convocada para a guerra do Peloponeso)
-- Vale pelo menos almoçar em casa pra poupar a cena do restaurante?
-- Vale. Relaxa, filha, já enfrentamos coisas piores...
--... (suspiros)....
#prayforme
-- Eu também, mãe! Que linda! Me esperando... praaa...?
-- Ir ao shopping!
-- Oi?
-- É, oras.
-- Cê jura?
-- Sim.
-- Hoje?
-- É.
-- Véspera de Natal?
-- An-ham.
-- Qual?
(Ainda refletindo na pergunta sobre a livre escolha de qual barbárie enfrentar)
-- Dom Pedro
(Calafrio na espinha)
-- Fazer o quê?
-- Comprar seu presente.
-- Meu? Só meu?
-- Sim, não quis comprar sem a sua companhia.
(Olha o gooolpe)
-- Sério?
-- É...
(Eu já manjada dos paranauê maternal)
-- Deixa pra depois então, meu maior presente é a sua companh...
-- Ah... mas também faltou ainda a lembrancinha da fulana, beltrana...
(bingo)
-- Mas...
-- Vamos enfrentar isso juntas.
(Como uma espartana convocada para a guerra do Peloponeso)
-- Vale pelo menos almoçar em casa pra poupar a cena do restaurante?
-- Vale. Relaxa, filha, já enfrentamos coisas piores...
--... (suspiros)....
#prayforme
segunda-feira, 3 de novembro de 2014
SP Off-road #1
-- Ana Clara, quanto tempo! O que você anda aprontando?
-- Eu? Aprontando? Nada. Sou um poço de serenidade.
-- Tá trabalhando no mesmo lugar?
-- Sim, continuo aqui...
-- E esta cidade maravilhosa?
[deve ter confundido]
-- São Paulo?
-- É, oras...
-- Água acabando, gente querendo a volta da ditadura militar, cantor puxando passeata fascista, deputado eleito dizendo que fuzila a presidenta, um bando de birrento que só questiona a eleição porque perdeu, tem uma galera de luto pela democracia que eles não sabem exercer e querem acabar, tá assim, digamos, uma beleza... melhor impossível.
-- Eu? Aprontando? Nada. Sou um poço de serenidade.
-- Tá trabalhando no mesmo lugar?
-- Sim, continuo aqui...
-- E esta cidade maravilhosa?
[deve ter confundido]
-- São Paulo?
-- É, oras...
-- Água acabando, gente querendo a volta da ditadura militar, cantor puxando passeata fascista, deputado eleito dizendo que fuzila a presidenta, um bando de birrento que só questiona a eleição porque perdeu, tem uma galera de luto pela democracia que eles não sabem exercer e querem acabar, tá assim, digamos, uma beleza... melhor impossível.
sexta-feira, 17 de outubro de 2014
Água e processo eleitoral.
Não é só xingar o governador pela incompetência
administrativa e associá-lo ao candidato do mesmo partido. É muito pior do que
isso.
Vejo que as pessoas reclamam da água, depois da polarização
eleitoral e associam uma coisa à outra apenas pelo viés seu-coxinha-desinformado
versus seu-petralha-de-uma-figa.
Semana passada, estive em uma reunião do Conselho da Cidade
aqui em São Paulo
do qual participou Vicente Andreu, diretor-presidente da Agência Nacional de Águas
(ANA). A minha pauta nem era água, era iluminação. Mas fiquei para ouvir e me
estarreci.
Depois de uma longa explanação sobre como era formado o
sistema Cantareira, Andreu apontou quatro fatos concretos e irrefutáveis:
1) Nunca
atravessamos uma seca tão grande
2) Existe
empenho por parte da Sabesp em suprir a falta de provisão
3) As
decisões que precisavam ser tomadas no passado não foram tomadas (se fossem, a
situação seria outra)
4) O processo eleitoral tem dificultado a tomada
de decisão e, consequentemente, tem diminuído as alternativas (de salvar o
estado)
De que maneira o processo eleitoral “dificulta” a tomada de
decisões importantes?
Andreu explica:
1) A
gestão de saneamento e água distribuída é feita pela Arsesp (Agência Reguladora
de Saneamento e Energia). É ela quem regula a tarifa e o controle praticado
pela Sabesp.
2) Como
sabemos, o uso de água é semelhante ao de energia: quanto maior a renda, maior
o consumo.
3) Para
que a Arsesp reprograme a tarifa em função do consumo, o governador precisa
RECONHECER o racionamento, por meio de decreto, porque já existe uma Lei de
Saneamento. Em outras palavras, para aplicar tarifa, o governo precisa decretar
situação de escassez, o que AINDA NÃO FOI FEITO.
4) Em
termos de estado, você só reconhece uma situação oficialmente, portanto é como
se o governo entendesse que absolutamente NADA está acontecendo – que não existe uma falta de água batendo à porta
das casas.
Com esse clima “nada acontece, feijoada”, estamos expandindo
o potencial da crise hídrica para toda a Grande São Paulo. Além do decreto,
existe outra medida que está inviabilizada por conta do processo eleitoral.
Vicente é didático mais uma vez:
A água que abastece a RMSP vem de duas formas: gravidade e
bombas. O volume morto tem 400 milhões m³ de água (mas nem todo ele está disponível).
O governo pediu 180 milhões m³. Desses, temos hoje pouco mais de 30 milhões m³.
Quanto entra e quanto sai de água no Sistema Cantareira?
O ideal é que entre 25m³ de água por segundo. Hoje, entram
apenas TRÊS m³ e tiramos 24m³. Esta situação está insustentável desde o início
do ano e, a partir de junho, NENHUMA regra foi fixada. As medidas que poderiam
ter sido feitas antes não foram feitas.
Alternativas?
A médio prazo, a ÚNICA
alternativa é avançar no Volume Morto, não existe nenhuma outra. Poços
alternativos e carros pipas podem até resolver em cidades pequenas com, no máximo,
150 mil habitantes. Mas para uma cidade do porte de São Paulo são medidas que,
definitivamente, não resolvem.
IMPASSE
Para tirar mais água do Volume Morto, o governo do estado
precisa estabelecer as vazões a médio e longo prazo. Ou seja, precisa de um
estudo que deveria ter sido entregue em AGOSTO e não foi, porque, como sabemos,
seria reconhecer o estado de escassez. Isto significa que teremos que
sacrificar nosso FUTURO a médio prazo.
FATO ELEITORAL
O mais importante é que as decisões estão sendo tomadas em
nome de vocês, sem vocês escolherem. O reservatório foi tão consumido que tomar
um ou outra decisão significa 10 ou 15 dias de administração de governo. Se tivéssemos
discutido antes, a situação seria outra. Ou chove ou a RMSP vai ter conviver
com restrições absolutamente inéditas na nossa história. A água não existirá.
>> Porque racionamento se faz quando tem água,
racionamento sem água é absolutamente incontrolável. Onde não há a opção de
fazer o gerenciamento técnico, o resultado é descontrole <<.
O que mais espanta é que a sensibilização para o tema inacreditavelmente
não aconteceu, nem nas mídias, nem nos jornais, nem por parte do próprio
governo.
Cultura.
Nós, paulistas e paulistanos, não temos a cultura necessária
para nos adaptar a uma situação de escassez. Aqui, com mais água, vamos
enfrentar muitos mais problemas com a população do que o semi-árido, por
exemplo.
Sobre o período de
chuvas.
Honestamente, a única previsão que podemos garantir com
segurança sobre chuvas é de 5 dias. Para 15 dias, podemos ter alguma margem de
acerto. Mais do que isso, é trabalhar com modelos. Todo instituto sério admite
isso. Portanto é leviano trabalhar com previsões de 15 dias ou mais. O único
jeito para São Paulo é ou chove, ou chove.
a pé
Mobilidade urbana invadiu meu peito no trampo. Estou enfronhada com o tema até às tampas. Aí a gente se dá conta porque faz certas escolhas. Política pública apaixona. De verdade. Você corre, pá, e tal, e fica atrás de dados ciclovias, vira a loucona das faixas, rói as unhas com a repercussão, vive de pauta, de bloco, de síntese, de contexto. A sociedade entendeu? É transporte público. Vamos lá. Todo mundo na rua, isso. Olha pela janela. Tá lá. Faixa. Não é só vinte centavos, nem só mobilidade, é direito à cidade. É pedestre, gente, bike, gente, moto, gente, busão, gente, metrô, gente. Tudo gente ali, me dá um espaço aí. Tipo texto com pensamento atropelado, fica confuso, mas vai, tem que ir. Ajeita, desenrola e sai do padrão, a coisa emperrada, o carro que fala inglês, alemão, francês, faz baliza sem mandar e não sai do lugar. E então o coletivo, o contato, o humano, o todo mundo é igual que flui, aos poucos. O silêncio da bike, inspiração no banho, instante inesperado, divagar no horizonte do viaduto do chá e pá, passou, sem ruído, andou, próximo parágrafo, por favor. É literatura urbana, da coisa que flui, que anda, cidade que pensa é assim, não para, escreve, se move e apaixona.
Grande Tucanistão Veredas #0
Outro dia, o céu estava ligeiramente nublado, e uma amiga disse: "vamos logo pra casa, Ana, se não vamos tomar chuva". Eu parei. Pensei. E sentenciei: "tomara". Quero chegar encharcada reclamando dos meus pés enrugados, da barra da calça, do cabelo úmido, de inutilizar 3 sapatilhas por verão, de perder 20 sombrinhas, de ver gente brotar do além para vender guarda-chuva no primeiro pingo d'água e da impossibilidade de se locomover sem chegar no destino parecendo que saiu da guerra. E não. Não choveu.
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