Estudei em mais de 12 escolas em toda vida. Até a 6ª série do ensino fundamental (1996) passei por várias escolas públicas. Em todas, via meus amigos esconderem parte de sua cota de bolacha no bolso, porque não tinha o que comer. Não tinha essa de vítima, era comum. Aliás era coisa da malandragem, de esperto. Porque se alguém descobrisse que havia bolacha a mais, não engolida antes de acabar o recreio, corria o risco perder para algum marmanjo esfomeado. Tinha que ser sagaz.
Em 97, minha mãe já estava desesperada sobre o que fazer com minha formação. Não tínhamos dinheiro. Meu maior presente de Natal era uma calça jeans da feira perto de casa. Prestei uma prova de BOLSA para estudar no sistema Objetivo, que tinha acabado de chegar na cidade. Fiquei em 4º lugar. Ganhei 80% de bolsa até o fim do colegial. E ainda assim, com os 20% restantes, perdi as contas de quantos bimestres passei sem apostila, usando a xérox do coleguinha, por atraso de pagamento.
As “amigas” da minha mãe e até algumas tias já tinham decretado o irrevogável: “o lugar da Ana Clara é em balcão de loja; vai ser caixa de supermercado para aprender a viver de acordo com o que ela tem e não com o que ela quer; onde já se viu ELA estudar em escola particular; a Mara vai deixá-la muito mal acostumada”. Minha mãe sempre me empoderou o suficiente para fazer ouvidos moucos. Um universo abriu-se. Guardo a edição do Objetivo de “David Copperfield”, do Charles Dickens, até hoje, quase como um trunfo. Gastei letrinha adoidado de tanto ler e estudar.
Veio o vestibular. Por várias razões que não cabem aqui, pude escolher o curso que quis, mas fui obrigada a morar em Campinas. Não existe jornalismo em universidade pública na cidade, então prestei PUCC e Facamp. Passei nas duas. Era 2002. Por qualidade, optei pela Facamp, o preço da mensalidade era equivalente a um curso de medicina. Só pude estudar porque consegui uma BOLSA de 70%. Não bastou ter sido uma das primeiras alunas da classe no colegial. O meu destino continuava sendo aquilo que a sociedade queria que eu fosse: menina pobre do interior alfabetizada para assinar o próprio nome e abrir crediário. E então tantas outras vezes, me foi decretado: “como assim a Ana Clara vai estudar na Facamp? Aquilo é faculdade pra rico, não pra ela; por que ela precisa disso? É muito puxado; Mara, lá não é realidade para sua filha, você está louca? Saiba que não adianta pedir dinheiro, não vou ajudar”. Não precisamos pedir para ninguém. O que precisávamos já tínhamos conseguido: o acesso.
O restante da minha história, depois de formada, todos já conhecem.
Não gosto de pensar no “Se”. É um exercício especulativo, geralmente vão, que não leva a lugar algum. Mas a convicção da minha história é tamanha que me permito a digressão. Ou melhor, me permito enfiar o dedo na cara de filhinho de papai mimado, que não entende nada de realidade. Que não sabe o que é viver no limiar de uma sociedade injusta e desigual e enche a boca para falar de meritocracia. Take it easy, galera. O mundo é muito maior do que o seu ódio e o seu chorume. E, por gentileza, pega o seu candidato e o governador paulista e vai chorar na Cantareira que, pelo menos, vai ser mais útil.
quinta-feira, 16 de outubro de 2014
Marinando na praia
Quais as chances do pessoal da REDE buscar o guarda-chuva do PSOL?
a) todas
b) quase todas
c) Não era para a Marina estar no avião?
d) Rede, pSol, areia e mar, quero!
a) todas
b) quase todas
c) Não era para a Marina estar no avião?
d) Rede, pSol, areia e mar, quero!
Para Duvivier
Caro, Duvivier
Pela primeira vez na vida, discordo de você. Não do conteúdo, mas da forma. Ou melhor, da forma de concluir. Gosto dos seus textos e te reivindico como aliado importante na luta contra o pensamento conservador e as bizarrices ensandecidas incrustadas em nossa sociedade. Tudo ia bem, com seu humor e ironia peculiares, até você concluir:
"me espanta quando classificam de esquerdistas pautas tão universais quanto a equidade de gêneros e raças, o direito da mulher ao aborto, o direito universal à moradia, à saúde ou à educação. Ser contra a garantia desses direitos universais não é posição política, é falta de serhumanidade”.
Ser a favor dessas pautas universais é, sim, uma posição política. Eu entendo que você sofra pressão dos reacionários que desqualificam qualquer pauta universal como esquerdismo-caviar, invasão bolivariana, chavismo brasileiro e outros estereótipos risíveis; e talvez até queira dialogar com quem acha que se declarar “não político” está acima do bem e do mal. Eu super te entendo. Mas essa onda marineira (sim, já virou adjetivo) – de não ser nem de lá, nem de cá, nem de lugar algum e reivindicar a ‘serhumanidade’ – demonstrou que não tem força quando as “pautas universais” têm que ser discutidas no palco da práxis, portanto, no cenário político.
Eu não conheço exatamente bem sua formação política, me parece que você nunca foi um militante (de qualquer organização: movimento social, estudantil, partido, ong, whatever), então talvez seja mais difícil você entender porque é tão caro à esquerda lutar por essas pautas universais com orgulho de fincar o pé em um posicionamento, sim, político. E aí, estou falando em esquerda no sentido bem amplo, desse mesmo que você falou, de lutar por direitos-universais-e-tão-óbvios-meu-deus-do-céu. Quando você defende um negro sendo espancado por policiais na rua, ou um homossexual sendo achincalhado na Paulista, ou dá condições para uma mulher se livrar da violência doméstica, você está tomando uma decisão política. Mas, Ana Clara, política é outra coisa, é aquela coisa nojenta lá do Congresso. Não, cara, não é. Ou é também. Quando você faz aquilo, você defende, mesmo sem querer, a história de pessoas que lutaram arduamente para que esse país não virasse a reedição do feudalismo no século 21 (ou do holocausto, para ser mais atualizada); que lutaram pela democracia, pelo direito de se organizar, de se expressar, de avançar na conquista de direitos. E, se quisermos ser conseqüentes, queiramos ou não, a aplicação desses direitos universais não vai a lugar algum pela “serhumanidade” se não pela disputa política (que vai muito além da forma institucional como eleição, congresso, senado, etc), no cenário concreto e real das coisas; e não na comparação entre cliques e likes entre uma revista e um jornal.
Veja bem, estou te dizendo isso com o maior carinho do mundo. Porque quero que você permaneça nesse combate, conte comigo e saiba que, sim, quem é contra esses “direitos universais” está tomando uma decisão política (não necessariamente de direita ou de esquerda, mas uma posição) – mais fácil seria, aliás, classificá-los como ‘maquiavélicos’, encaixá-los como vilões dessa novela chamada Brasil e dizer que não passam de bobos, chatos e feios. A briga não é fácil. Mas não tenha receio. Você tem aliados. E muitos. E aliados políticos: no melhor, maior e mais revolucionário sentido do termo.
Artigo: Ser Humanidade, por Duvivier
"me espanta quando classificam de esquerdistas pautas tão universais quanto a equidade de gêneros e raças, o direito da mulher ao aborto, o direito universal à moradia, à saúde ou à educação. Ser contra a garantia desses direitos universais não é posição política, é falta de serhumanidade”.
Ser a favor dessas pautas universais é, sim, uma posição política. Eu entendo que você sofra pressão dos reacionários que desqualificam qualquer pauta universal como esquerdismo-caviar, invasão bolivariana, chavismo brasileiro e outros estereótipos risíveis; e talvez até queira dialogar com quem acha que se declarar “não político” está acima do bem e do mal. Eu super te entendo. Mas essa onda marineira (sim, já virou adjetivo) – de não ser nem de lá, nem de cá, nem de lugar algum e reivindicar a ‘serhumanidade’ – demonstrou que não tem força quando as “pautas universais” têm que ser discutidas no palco da práxis, portanto, no cenário político.
Eu não conheço exatamente bem sua formação política, me parece que você nunca foi um militante (de qualquer organização: movimento social, estudantil, partido, ong, whatever), então talvez seja mais difícil você entender porque é tão caro à esquerda lutar por essas pautas universais com orgulho de fincar o pé em um posicionamento, sim, político. E aí, estou falando em esquerda no sentido bem amplo, desse mesmo que você falou, de lutar por direitos-universais-e-tão-óbvios-meu-deus-do-céu. Quando você defende um negro sendo espancado por policiais na rua, ou um homossexual sendo achincalhado na Paulista, ou dá condições para uma mulher se livrar da violência doméstica, você está tomando uma decisão política. Mas, Ana Clara, política é outra coisa, é aquela coisa nojenta lá do Congresso. Não, cara, não é. Ou é também. Quando você faz aquilo, você defende, mesmo sem querer, a história de pessoas que lutaram arduamente para que esse país não virasse a reedição do feudalismo no século 21 (ou do holocausto, para ser mais atualizada); que lutaram pela democracia, pelo direito de se organizar, de se expressar, de avançar na conquista de direitos. E, se quisermos ser conseqüentes, queiramos ou não, a aplicação desses direitos universais não vai a lugar algum pela “serhumanidade” se não pela disputa política (que vai muito além da forma institucional como eleição, congresso, senado, etc), no cenário concreto e real das coisas; e não na comparação entre cliques e likes entre uma revista e um jornal.
Veja bem, estou te dizendo isso com o maior carinho do mundo. Porque quero que você permaneça nesse combate, conte comigo e saiba que, sim, quem é contra esses “direitos universais” está tomando uma decisão política (não necessariamente de direita ou de esquerda, mas uma posição) – mais fácil seria, aliás, classificá-los como ‘maquiavélicos’, encaixá-los como vilões dessa novela chamada Brasil e dizer que não passam de bobos, chatos e feios. A briga não é fácil. Mas não tenha receio. Você tem aliados. E muitos. E aliados políticos: no melhor, maior e mais revolucionário sentido do termo.
Artigo: Ser Humanidade, por Duvivier
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
Digressão Literária. As brumas do segundo turno.
Digressão literária. Voltei para ler os dois volumes que faltavam de "As Brumas de Avalon". Eu já tinha me apaixonado e não me recordo exatamente por que raios não terminei de devorar a saga em três dias. Devem ter motivos mais óbvios como ser atropelada por outras leituras mais, er, "urgentes" e "utilitárias"; e também devem existir razões mais ocultas como o prolongamento do prazer e da expectativa -- tipo aquele pacote de bolacha gostosa que você guardava escondido na gaveta e comia uma por dia para durar mais.
Agora, PAUSA. E sinto que vocês me olham, perplexos: o segundo turno presidencial estrumbando na sua cara e você aí preocupada com Morgana, Artur, Gwenyhfar, Lancelote, fada, espada, bainha, galhudo e a galerinha gente boa que toma todas no boteco da Távola. Não está fácil. E talvez essa seja a terceira razão ainda-mais-oculta para ter voltado às brumas da Senhora do Lago. Porque se o livro de cabeceira pode dizer muito a respeito do estado de espírito de alguém, o que dizer de pessoas, como eu, que carregam livros de gêneros distintos na mochila, por meses? E mais: que vão e voltam em leituras aleatórias? É certo que, do ponto de vista da formação literária, as aventuras de Morgana caíram em minhas mãos um pouco tarde, mas sempre há tempo para preencher lacunas. De toda forma, a minha reconexão com o fantástico, ainda que em um momento de tensão política e inquietações internas, tem sido muito mais prazerosa do que gerado um sentimento de culpa. Diante das exigências impostas e que me imponho, eu tinha me esquecido de como é bom se afundar em personagens, reinos e encantamentos; de como é possível, já que as pessoas dificilmente o fazem, que uma obra gire na mesma verve imaginativa e viajante que consigo entrar, quando reencontro meu botão rumo a Alfa. Recomendo.
Agora, PAUSA. E sinto que vocês me olham, perplexos: o segundo turno presidencial estrumbando na sua cara e você aí preocupada com Morgana, Artur, Gwenyhfar, Lancelote, fada, espada, bainha, galhudo e a galerinha gente boa que toma todas no boteco da Távola. Não está fácil. E talvez essa seja a terceira razão ainda-mais-oculta para ter voltado às brumas da Senhora do Lago. Porque se o livro de cabeceira pode dizer muito a respeito do estado de espírito de alguém, o que dizer de pessoas, como eu, que carregam livros de gêneros distintos na mochila, por meses? E mais: que vão e voltam em leituras aleatórias? É certo que, do ponto de vista da formação literária, as aventuras de Morgana caíram em minhas mãos um pouco tarde, mas sempre há tempo para preencher lacunas. De toda forma, a minha reconexão com o fantástico, ainda que em um momento de tensão política e inquietações internas, tem sido muito mais prazerosa do que gerado um sentimento de culpa. Diante das exigências impostas e que me imponho, eu tinha me esquecido de como é bom se afundar em personagens, reinos e encantamentos; de como é possível, já que as pessoas dificilmente o fazem, que uma obra gire na mesma verve imaginativa e viajante que consigo entrar, quando reencontro meu botão rumo a Alfa. Recomendo.
segunda-feira, 6 de outubro de 2014
terça-feira, 30 de setembro de 2014
Miolo
-- ... e um pão na chapa sem miolo, por favor.
-- Ôôôô, Zé! Manda um na chapa sem juízo pra moça aqui.
-- Ôôôô, Zé! Manda um na chapa sem juízo pra moça aqui.
Bom dia.
sexta-feira, 5 de setembro de 2014
Alimento
Meu pai sempre demorou muito para terminar uma refeição. Minha mãe falava, ria e comia, eu comia e meu pai se debruçava sobre o prato e ficava horas lá... pensando. Não, não era rezando. Aliás, meu pai não rezava, meditava, e era em outro momento. Mas isso é outra história. De volta à mesa, ele ficava em deferência à comida por longos minutos, a ponto do alimento esfriar mesmo. Era comum. Na minha cabeça, todos os pais faziam isso. Sempre houve um respeito entre nós neste ritual.
Quando entendi que não era algo próprio dos pais, mas do meu pai, questionei. E essa conversa ficou em mim durante muitos anos. Acho que até hoje. Perguntei se ele rezava, ele disse que era algo parecido com isso, mas tentava me fazer entender que não era o Pai-Nosso antes de dormir. Perguntei porque demorava tanto. Ele começou a traçar uma linha de todas as pessoas envolvidas na produção de cada item da comida. O cara que lavrou a terra, o outro que plantou a semente, colheu; ficou atento à chuva, ao sol, ao vento; aquele que distribuiu, cuidou, transportou e chegou até nós. Uma espécie de agradecimento a todos os envolvidos do plano terrestre, não espiritual. Porque o alimento espiritual, como disse, ele buscava em outro momento, na meditação. Aquele era o momento do alimento da terra, aqui, do mundo real, e esse é feito por pessoas, por gente, por humanos e é a eles quem temos de agradecer -- ainda que indiretamente. Eu lembro que, à medida que ele enumerava, calculei rapidamente que, de fato, era muita gente e por isso demorava. Foi bastante revelador e me acompanhou profundamente na minha formação política. Afinal, inverter essa lógica do protagonismo do alimento que fica nos rótulos, na empresa, no patrão que só quer "goumertizar" e ter lucro para o cara que produz, colhe e tem relação direta com a terra é o primeiro passo para entender conjunturas maiores como, por exemplo, a reforma agrária. Porque, sim, é um debate que está à nossa mesa, literalmente, todos os dias. Este artigo faz isso (talvez o título não reflita exatamente o mais importante). A busca por focar nos produtores e agricultores locais para valorizar o que, realmente, vai ser a contra corrente dessa lógica de industrialização bruta da vida alimentar (que passa por transgênicos e afins) já é o botão II do alarme vermelho. O primeiro foi do MST que, há muito tempo, já tem uma política concreta e consciente voltada para este debate em um nível muito mais amplo.
Quando entendi que não era algo próprio dos pais, mas do meu pai, questionei. E essa conversa ficou em mim durante muitos anos. Acho que até hoje. Perguntei se ele rezava, ele disse que era algo parecido com isso, mas tentava me fazer entender que não era o Pai-Nosso antes de dormir. Perguntei porque demorava tanto. Ele começou a traçar uma linha de todas as pessoas envolvidas na produção de cada item da comida. O cara que lavrou a terra, o outro que plantou a semente, colheu; ficou atento à chuva, ao sol, ao vento; aquele que distribuiu, cuidou, transportou e chegou até nós. Uma espécie de agradecimento a todos os envolvidos do plano terrestre, não espiritual. Porque o alimento espiritual, como disse, ele buscava em outro momento, na meditação. Aquele era o momento do alimento da terra, aqui, do mundo real, e esse é feito por pessoas, por gente, por humanos e é a eles quem temos de agradecer -- ainda que indiretamente. Eu lembro que, à medida que ele enumerava, calculei rapidamente que, de fato, era muita gente e por isso demorava. Foi bastante revelador e me acompanhou profundamente na minha formação política. Afinal, inverter essa lógica do protagonismo do alimento que fica nos rótulos, na empresa, no patrão que só quer "goumertizar" e ter lucro para o cara que produz, colhe e tem relação direta com a terra é o primeiro passo para entender conjunturas maiores como, por exemplo, a reforma agrária. Porque, sim, é um debate que está à nossa mesa, literalmente, todos os dias. Este artigo faz isso (talvez o título não reflita exatamente o mais importante). A busca por focar nos produtores e agricultores locais para valorizar o que, realmente, vai ser a contra corrente dessa lógica de industrialização bruta da vida alimentar (que passa por transgênicos e afins) já é o botão II do alarme vermelho. O primeiro foi do MST que, há muito tempo, já tem uma política concreta e consciente voltada para este debate em um nível muito mais amplo.
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