Meu pai sempre demorou muito para terminar uma refeição. Minha mãe falava, ria e comia, eu comia e meu pai se debruçava sobre o prato e ficava horas lá... pensando. Não, não era rezando. Aliás, meu pai não rezava, meditava, e era em outro momento. Mas isso é outra história. De volta à mesa, ele ficava em deferência à comida por longos minutos, a ponto do alimento esfriar mesmo. Era comum. Na minha cabeça, todos os pais faziam isso. Sempre houve um respeito entre nós neste ritual. Quando entendi que não era algo próprio dos pais, mas do meu pai, questionei. E essa conversa ficou em mim durante muitos anos. Acho que até hoje. Perguntei se ele rezava, ele disse que era algo parecido com isso, mas tentava me fazer entender que não era o Pai-Nosso antes de dormir. Perguntei porque demorava tanto. Ele começou a traçar uma linha de todas as pessoas envolvidas na produção de cada item da comida. O cara que lavrou a terra, o outro que plantou a semente, colheu; ficou atento à chuva, ao sol, ao vento; aquele que distribuiu, cuidou, transportou e chegou até nós. Uma espécie de agradecimento a todos os envolvidos do plano terrestre, não espiritual. Porque o alimento espiritual, como disse, ele buscava em outro momento, na meditação. Aquele era o momento do alimento da terra, aqui, do mundo real, e esse é feito por pessoas, por gente, por humanos e é a eles quem temos de agradecer -- ainda que indiretamente. Eu lembro que, à medida que ele enumerava, calculei rapidamente que, de fato, era muita gente e por isso demorava. Foi bastante revelador e me acompanhou profundamente na minha formação política. Afinal, inverter essa lógica do protagonismo do alimento que fica nos rótulos, na empresa, no patrão que só quer "goumertizar" e ter lucro para o cara que produz, colhe e tem relação direta com a terra é o primeiro passo para entender conjunturas maiores como, por exemplo, a reforma agrária. Porque, sim, é um debate que está à nossa mesa, literalmente, todos os dias. Este artigo faz isso (talvez o título não reflita exatamente o mais importante). A busca por focar nos produtores e agricultores locais para valorizar o que, realmente, vai ser a contra corrente dessa lógica de industrialização bruta da vida alimentar (que passa por transgênicos e afins) já é o botão II do alarme vermelho. O primeiro foi do MST que, há muito tempo, já tem uma política concreta e consciente voltada para este debate em um nível muito mais amplo.
Duas obras sobre feminismo e diálogo atravessaram meu caminho esta semana. O livro “Bordados” e o filme “A Pedra de Paciência”. No cinema, uma jovem afegã pobre assiste ao marido em coma por causa de um tiro. Com duas filhas e uma guerra civil no quintal de sua casa, ela leva as crianças para uma tia liberal e prostituta cuidar enquanto lida com seu parceiro estático, um herói guerrilheiro. Fosse uma narrativa comum, os conflitos externos obviamente colocados – guerra, sobrevivência, opressão, relações sociais – seriam o eixo do filme, mas não são. A grande sacada da obra é sobrepor o conflito interno ao externo. A trama se desenvolve em um monólogo da jovem com o marido em que, aos poucos, ela revela os detalhes mais sórdidos de sua existência. O gatilho do diálogo vem à tona e traumas de infância, a relação com a religião, o casamento, a opressão, o próprio corpo e as decisões (ou não) sobre a própria vida começam a ser articuladas. O marco da virada acontece quando a protagonista se pergunta “as mulheres não falam sobre isso”. A partir daí, suas reflexões com a pedra de paciência – nome dado ao marido influenciado por uma lenda contada pela tia liberal – partem para uma espécie de tomada de consciência e rompimento subjetivo com o status quo. Esse movimento também é acompanhado por contextualizações do “sistema de valores morais” da sociedade afegã – quando guardas entram na casa e ela precisa “se desonrar” – dizendo que vende o corpo – para não ser estuprada. O fato é que a possibilidade de falar sobre si mesma e as próprias questões torna-se um elemento tão libertador quanto fatores externos. No livro “Bordados”, a proposta de Marjane Satrapi é semelhante, sob outro viés: ela apresenta os bate-papos “entre mulheres” da sua família que aconteciam após o almoço. A autora apresenta como essas conversas eram liberais e a importância de contar as próprias histórias em um mundo onde a voz masculina é predominante.
Esse protagonismo do inconsciente feminino revelado – seja entre mulheres, dentro do casamento ou socialmente – nas obras culturais contemporâneas significa o início de um aprofundamento na subjetividade da opressão. E não estou falando em colocar mulheres como protagonistas, isso não é nada novo – mas, sim, o diálogo, a conversa, o conteúdo da voz, o exercício da relação com o outro que se transforma no catalisador do rompimento com o confinamento social, a separação de gênero – aquilo que só pode ser dito “entre mulheres”, pois “eles”, “os homens”, nunca vão entender. Esse fenômeno acontece, porque o acúmulo sobre os fatores opressores externos já está em pauta na sociedade – apesar de ainda precisarmos avançar em questões básicas. Mas esse aprofundamento dos elementos sutis – daquilo que não é “visível” e nem pode ser mensurado em estatísticas econômicas, sociais e criminais – representa um passo importante na luta feminista. Afinal o quadro é tão, mas tão gritante que uma atitude tão profundamente humana como falar, conversar e se relacionar com o outro revela o quão desumanamente construímos nossas relações de gênero.
-- Moça, a senhora poderia responder uma pesquisa? -- Claro. -- Na sua casa, tem quantas geladeiras? -- Tem freezer? -- Quantos carros? -- TVs? -- Aparelhos de DVD? -- Máquina de lavar? -- Empregada? -- Qual escolaridade do chefe de família? -- Huumm... nossa, você saiu da classe por um pontinho. Espera, deixa eu ver aqui... -- [...] -- Óh, se você disser que que sua geladeira não tem freezer, eu posso continuar com você. Se te perguntarem, você responde que não tem, por favor?
Passando email. -- A de ana, c de clara, fer-ra-ri arroba gmail pon... -- ferrari com dois erres? -- isso, fer-rá-ri... do carro mesmo -- ah, tá... a-c-ferrari-do-carmo arroba... o quê mesmo?
-- Aqui é a Avenida Paulista onde aconteceu aquela passeata enorme em junho que saiu nos jornais do mundo inteiro... -- Ali é o Masp, museu de arte. As manifestações que ocupam a Paulista geralmente se concentram neste vão... [...] -- Tá vendo essa região aqui? É o Largo do Arouche. Os lutadores da causa LGBT se identificam muito com esse lugar... [...] -- Aqui é o Largo São Francisco, onde fica o Direito da USP. Se é estudantil, o fervo geralmente começa aqui também... -- Tem aqui, óh, a Praça da Sé... local histórico de manifestação dos trabalhadores organizados...
-- E sabe esse viaduto lindo? Chama "Viaduto do Chá", aquele prédio ali
da ponta é a Prefeitura. Manifestação de pautas variadas garantida
todos os dias.