segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Vai ter Copa.

Vai ter Copa, vai ter manifestação, vai ter gente na rua gritando Brasil por mais direitos e chuta essa bola direto pro gol. Tudo ao mesmo tempo, junto e misturado. Vai ter gente que até ontem não sabia o que era impedimento desfiando a escalação do Uruguai de cor e gente que até ontem não sabia o que era democracia de fato estufando o peito nas ruas com bandeiras. Vai ter gente dizendo que Joaquim Barbosa é o novo batman tupiniquim e gente dizendo não falei que o Felipão ia amarelar. Vai ter black-bloc querendo misturar joio com trigo e vai ter o torcedor defendendo a retranca conservadora do técnico. Vai ter um país que quer ir para frente, que não se contenta com a Copa, que quer fazer democracia, quer investimento em saúde, educação, transporte, segurança, quer discutir o destino do PIB, quer jogar futebol, quer avançar em direitos. E isso tudo bem misturado -- de pessoas que torcem pela seleção, mas também lutam por um país melhor -- é o cenário mais exemplar que o Brasil poderia dar ao mundo, quando todos os olhos estão voltados para cá. É de encher de orgulho saber que vamos sediar um evento como a Copa em um momento de profunda agitação política. Não estou nem aí para as malas de estrangeiros que podem ser extraviadas como acontece em qualquer lugar do mundo ou com o taxista do aeroporto não ter proeficiência em três línguas. Que venham os jogos, as manifestações, as festas, as concentrações, as bandeiras de países e de reivindicações, o país vai ferver.
04/06/2014

Tempos difíceis.

-- Ana, você tem milhas?
-- Se eu tiver crédito no bilhete único já é muito e fico agradecida.

Dos hábitos. Letra de música.

Até o mundo mineral sabe que não tenho aqueeeeela relação direta com a música, ou melhor, com os artistas. Tenho um gosto geral bastante eclético em que concedo dois terços do “ecletismo” aos afetos musicais da infância e adolescência – período hostil em que a disponibilidade da internet não existia e rádios populares moldavam boa parte do que era possível ouvir.
Não que fosse impossível escapar disso, meus amigos “galera de preto” sempre se defendem diante desses argumentos, mas lá no fundo conseguem desfiar um pagode noventinha de cor. Eu sei que conseguem. Estudei piano erudito e sempre treinava na casa das amigas que tinham um gigante na sala. E, a partir de então, iniciei um processo de separar músicas de socialização com aquelas de gosto pessoal.
No começo, rolava certo constrangimento. Dizer que você super curtia ouvir o “Eternamente, Yolanda” que sua mãe punha no talo para a faxina de sábado não fazia de você “a cool” na rodinha dos 15 anos. Pelo contrário, era até meio brega. Imagina dizer que você sabia cantar “Águas de Março” completinha, sem errar um verso, desde os 5 anos? Um tanto constrangedor em um círculo em que as meninas morriam pelo Backstreet Boys. Você até ouvia, colocava para pensar no bonitinho da escola, se chafurdava em clipes da MTV, mas se bobear nem sabia dizer direito quem era quem. Bom, eu, pelo menos, nunca soube. Rolava um desapego pelos artistas das músicas de socialização – mas as músicas em si, todas elas fizeram parte da minha, ahn, educação afetivo-musical-sentimental.

Com o tempo, o constrangimento mudou de lado. Na escola do pedantismo e do aprendizado da arrogância intelectual, mais conhecida como universidade, as pessoas brotam do além com um gosto tão refinado que nem parecem ter vivido no Brasil. Ou, se viveram, foi em uma super bolha protetora power mega auditivator filter advanced. Aquelas coisas antes “bregas” passam a serem vistas como incríveis e você descobre que aquele par de olho azul gigante, na capa daquele disco que sua mãe arranhou de tanto ouvir, era um ser idolatrado pelas pessoas que você estava se relacionando. E dentro deste mundo, você é empurrado a ser incapaz de pronunciar um gosto musical sem antes saber preencher a ficha cadastral do crediário do artista.
Desse modo, fui incentivada, contraditoriamente ou não, a avançar em alguma relação maior com as músicas que, realmente, eram do meu gosto pessoal. Somado à militância política, o cenário ficou ainda mais completo e complexo.

Quando a balança começa a se equilibrar – e, frise-se, é preciso uma certa maturidade para isso –, você começa a ter mais desapego e é capaz de revelar para si mesmo um dos eixos de um gosto pessoal tão, relativamente, variado. Porque ter um gosto amplo nas músicas de socialização é perfeitamente previsível, mas no gosto pessoal gera um pouco mais de necessidade de reflexão.
No meu caso, são as letras.
Por outras razões que não cabem aqui, minha relação com as letras é tanto quanto ou até maior do que a música em si. Isso explica a última terça parte do meu “ecletismo” musical. Claro que se trata de uma relação dialética, não adianta uma letra perfeita em um tom absolutamente desafinado. Mas, ainda assim, e essa é uma constatação de um hábito frequente: as letras, ultimamente, têm vindo antes da descoberta da música. Na ânsia que todos os seres têm de procurar uma música que transmita ou interprete a fúria ou a calmaria interna, antes do acorde, vou direto para a letra. É um caminho mais árduo, mais difícil, porque nenhuma vai completar... e, se completa, ao ouvi-la não era a sensação desejada.
Está claro que essa fase é parte do processo de aprofundamento da autonomia. Que ainda cause um certo caos e uma angústia um tanto aparentemente irremediáveis, mas fica meu registro da experiência.

Imagina no jornalismo.

(Brasil perde para a Alemanha e Argentina vai para a final)

Minha amiga italiana vendo "Em Pauta", na Globo News
-- Ana Clara, essa mulher só fala bobagem. Ela é jornalista mesmo?
-- Sim.
-- Jornalista mesmo?! Meu Deus do céu! Vocês falam sempre desse jeito?
-- Então, é que...
-- Olha isso! (ela interrompe quando a jornalista faz um gracejo jocoso sobre a expectativa da entrega da taça para o Thiago Silva se transformar na entrega para a Argentina)
-- Esse jornal é o nacional?
-- Não. Esse é o canal específico de notícias, o Jornal Nacional costuma ser pior e...
-- Pior?!?
(a jornalista faz mais um gracejo incentivando a rivalidade mesquinha com os hermanos)
-- Como pode ser pior?!
-- Hum, então... o JN consegue ser neste sentido da sua revolta, sim...
-- Mas não pode ser assim! Ela é uma jornalista...
-- ... então...

domingo, 10 de agosto de 2014

Dia dos Pais.

Garota faceira de três anos com o pai, no buzú.
-- Aííí, pai, sabe o que o amigo da mamãe falou?
-- O quê?
-- Que ele quer namorar a minha mãe...
(pai consente calado, ela continua toda empolgada)
--... e que é pra 'mim' ajudar, sabe...
-- sabe, pai, ele falou "me ajuda, me ajuda"...


#felizdiadospais

No Cometa.

Moça de Jaguariúna ao meu lado.

-- ... e então você mora e trabalha em São Paulo?
-- Sim...
-- Nossa, legal. Eu já fui chamada para trabalhar na capital, mas deve ser muito difícil...
-- Ah, é bem diferente do interior mesmo, é mais corrido, puxado, leva um tempo pra acost...
-- Nem é por isso. Me adapto fácil. É que eu não conheço direito a cidade...
-- Ah, sim. Pensar no deslocamento é importante, mas é pensar no tipo de transp...
-- Não, não é disso que eu tenho medo, não...
-- Ah, é o quê? Segurança?
-- Também não...
-- Custo de vida?
-- Não...
-- O que é?
-- É que eu como eu não conheço bem a cidade...
-- Hum...
-- Eu não sei onde vai alagar...
(Ooooiii?!?!?)
-- Alagar?!
-- É, assim... é que eu tenho cachorro, sabe...
-- Ahm...
(onde esse raciocínio vai parar, céus)
-- aí não dá para morar em apartamento...
-- Sei...
(tudo bem alagar se ela estiver presa no décimo andar, é isso)
-- Então vou ter que morar em casa...
-- Certo...
(falo sobre preço de aluguel ou desisto?)
-- Aí, não vou saber direito onde pode alagar... eu vi na TV, fiquei com receio...
-- Huuuuummm...
(onde vai alagar!!! chupa seca na cantareira!!!)
-- Falei com meu marido, imagina que a gente muda e nossas coisas boiando...
(consinto)
-- ... e ele disse que era só ficar longe do Tietê...
(imagino o papo do casal)
-- É... hum.... er... ããã... por aí...
-- E então desistimos dessa ideia... pelos cachorros...
(e pela lógica)
-- Entendi...
(nada)

sexta-feira, 11 de julho de 2014

sozinho vezes zero

Essa sensação de estar sempre sozinhos mesmo... porque, no limite, estamos... mas somos humanos, somos carne, somos essa coisa que nos preenche e nos esvazia a todo instante. estamos em movimento: existe vida, sofrimento, ponto de alegria, horas ininterruptas de angústia, explosões, ôxe... é essa coisa sofrida, tropeçada, empurrada, tipo carrinho de mão enferrujado no modo off road que faz qualquer estrada virar uma Dom Pedro de Cometa vendo paisagem passar pela janela...  

Para LL
c/ carinho