-- Então você é lorenense...
-- Loreniana não soa muito bem. Fato.
-- Você falou que é perto de onde mesmo? Aparecida de quê?
-- Do Norte.
-- Ah! Da Basílica?
-- Isso.
-- Que tem a cúpula?
(até onde eu sei, não pensaram em tirar, porque não dá dinheiro e tals)
-- Essa mesmo...
-- Bacana! Você ia muito lá?
(me diz um lugar onde até o papa foi e a rafameia provinciana dos arredores não iria)
-- Sim, claro
-- Que massa. Agora até tem um shopping dentro...
-- An-hãm... faz mais de dez anos...
-- E Pedreira? Você disse que sua mãe e tals... onde fica?
-- Perto de Jaguariúna, no circuito das ág...
-- Ah! Onde tem o rodeio?
-- É. (pausa para a respiração profunda). O rodeio.
-- Cara, é muito famoso!
-- Ôôô
-- Você já foi?
(me diz um universitário campineiro que sobreviveu ao rodeio de Jaguariúna)
-- Sim, claro.
-- Tem até aquela música...
(não, please, god, no, ele não vai cant...)
-- Jaguariúna quer rodeio... dá, dá, dá...
(resquícios de dignidade rolaram mundo afora)
-- Ah, e esse sotaquinho de mineira, hein, aposto que comeu muito pão de queijo em BH
(esse que tá na minha mão vai voar na sua cara daqui a pouco)
-- Sim, a cozinha mineira é bastante comple...
-- Aposto que você foi muito bem recebida. O povo mineiro é muito hospitalei...
-- Sim, inclusive os profissionais com quem trabal...
-- E lá só tem mulher bonita, né. Não te incomodou?
(cê jura que quer saber quem me incomoda?)
-- Não, não. Pelo contrário, tenho muitas amizades por lá.
-- Cara, e ainda tem Paulínia! A refinaria, o cinema...
(junta tudo e fica uma tela lambuzada de diesel nessa sua fuça, infeliz)
-- Pois é, mas tem problemas graves de uso de dinheiro púb...
-- Não, mas agora você é chique, ta na capital!
(ai...)
-- Me conta: você já ficou presa no metrô quantas vezes? Já saiu andando pelos trilhos? O Haddad vai fazer faixa de ônibus até minha casa?
(só se for pra passar o busão da minha havaiana de pau queimandos nessas varetas que cê chama de perna)
-- É, a política de transporte público está em pauta na cidade e...
-- Espera. Agora, vem cá...
-- Ahn...
-- Vamos falar sério
(finalmente, há esperança)
-- Você que passou por tantos lugares...
-- Hum...
-- Me fala a ver-da-de
(muito filosófica essa questão, mas prossigamos)
-- Claro, diga.
-- Quem bebe água de Campinas vira gay mesmo?
domingo, 9 de março de 2014
Da série: Perguntas casuais difíceis de responder
-- De onde você é?
-- Onde eu nasci?
-- Sim.
-- Em Lorena.
-- Onde fica?
-- Interior de São Pa...
-- Ué, não é Minas?
-- Não. É perto de Apareci...
-- Mas e esse sotaque?
-- É que morei muitos anos em Belo Horizonte.
-- Aaah, tá, mas então seus pais são de Lorena...
-- Não, agora eles moram em Paulínia...
-- Perto de Lorena?
-- Não, é perto de Campinas, onde eu me formei...
-- Ah, eles te acompanharam quando você foi fazer faculdade?
-- Não. Eles são separados. Moravam juntos, em Paulínia, quando eu era criança...
-- Mas você não nasceu em Lorena?
-- Sim, mas passei a infância em Paulínia e Campinas...
-- Ah, por isso você fez faculdade em Campinas, já estava lá mesmo e...
-- Não, voltei pra Lorena com uns nove anos e fiquei lá até o Ensino Médio...
-- E por que foi estudar em Campinas?
-- Porque minha mãe morava em Pedreira.
-- Pedreira? Não era Paulínia?
-- Sim. Mas Pedreira é perto de Campinas também.
-- Ah, ta. O que ela foi fazer lá?
-- Trabalhar.
-- E por que você não foi junto?
-- Porque eu estudava em Lorena... ela foi pra Osasco, depois pra Pedreira.
-- E Minas? Foi depois de formada?
-- Sim, fui trabalhar.
-- Mas sua família é de onde?
-- Da mãe?
-- Sim.
-- De Lorena.
-- E do seu pai? De Paulínia?
-- Não. De Bragança Paulista.
-- E os dois moram na mesma cidade?
-- Sim.
-- Ah, estão juntos.
-- Não.
-- Eita, mas onde você mora agora?
-- São Paulo.
-- Primeira vez que mora na capital?
-- Não.
-- Ok, desisto. Vou fazer mais fácil: Chuvinha chata essa hoje, não?
-- É... ... huuumm... me dá um minutinho, preciso ver se entrou em estado de atenção.
-- Onde eu nasci?
-- Sim.
-- Em Lorena.
-- Onde fica?
-- Interior de São Pa...
-- Ué, não é Minas?
-- Não. É perto de Apareci...
-- Mas e esse sotaque?
-- É que morei muitos anos em Belo Horizonte.
-- Aaah, tá, mas então seus pais são de Lorena...
-- Não, agora eles moram em Paulínia...
-- Perto de Lorena?
-- Não, é perto de Campinas, onde eu me formei...
-- Ah, eles te acompanharam quando você foi fazer faculdade?
-- Não. Eles são separados. Moravam juntos, em Paulínia, quando eu era criança...
-- Mas você não nasceu em Lorena?
-- Sim, mas passei a infância em Paulínia e Campinas...
-- Ah, por isso você fez faculdade em Campinas, já estava lá mesmo e...
-- Não, voltei pra Lorena com uns nove anos e fiquei lá até o Ensino Médio...
-- E por que foi estudar em Campinas?
-- Porque minha mãe morava em Pedreira.
-- Pedreira? Não era Paulínia?
-- Sim. Mas Pedreira é perto de Campinas também.
-- Ah, ta. O que ela foi fazer lá?
-- Trabalhar.
-- E por que você não foi junto?
-- Porque eu estudava em Lorena... ela foi pra Osasco, depois pra Pedreira.
-- E Minas? Foi depois de formada?
-- Sim, fui trabalhar.
-- Mas sua família é de onde?
-- Da mãe?
-- Sim.
-- De Lorena.
-- E do seu pai? De Paulínia?
-- Não. De Bragança Paulista.
-- E os dois moram na mesma cidade?
-- Sim.
-- Ah, estão juntos.
-- Não.
-- Eita, mas onde você mora agora?
-- São Paulo.
-- Primeira vez que mora na capital?
-- Não.
-- Ok, desisto. Vou fazer mais fácil: Chuvinha chata essa hoje, não?
-- É... ... huuumm... me dá um minutinho, preciso ver se entrou em estado de atenção.
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
Engole esse choro (carta a um amigo)
Ei, amigo, estava pensando esses dias sobre aquele lance de engolir choro. A identificação foi tanta que tenho certeza sermos de uma geração de engole-choros. Quase todos os meus amigos, por quem tenho algum respeito intelectual, político ou afetivo, passaram por isso. Se fosse hoje, terapeutas e psicólogos ficariam discorrendo sobre o quão “coitados” e “oprimidos” somos; como nossos pais foram uns irresponsáveis por não “entenderem” o quão especial são seus filhos mimados e essa papagaiada toda que – juro ter dó muitas vezes – incutem nesta geração posterior à nossa que se acha tão além do bem e do mal. Se existe algum prejuízo em engolir essa banana de dinamite interna que explode a todo momento em nosso ser (o que não significa, claro, que não nos afeta, mas nos faz minimamente conter as lágrimas), isto nos faz enxergar o outro ou a conjuntura em que estamos inseridos. Explico-me. Somos frutos de uma geração que juntou a década perdida (80) com a década desperdiçada (90) e uma crise econômica cretina que afetou tudo até nossa cadeia e gosto alimentares dirá nossa subjetividade. Somos filhos de mães e pais que não sabiam quanto ia custar o pão no dia seguinte, que dependia do programa de governo daquele corrupto safado que dava leite, mas não aumentava salário, nem garantia educação, transporte, a mínima condição de sobrevivência. Nos fazer engolir o choro talvez fosse a melhor forma de nos preparar para a vida, para a selva, para aquela inflação que poderia fazer tudo ficar pior do dia pra noite, para aquele momento de ver o próprio filho dormindo e ter que sustenta-lo sem ajuda do pai, da família, de ninguém... se não apenas, dos próprios vizinhos que passavam tanta necessidade quanto a gente. É essa certeza que faz nossos draminhas cotidianos – nosso pé na bunda amoroso, aquele(a) cretino(a) que não entende nosso jeito de amar, o chefe opressor, o salário baixo e a jornada desgastante – ficarem pequenos, porque aprendemos a olhar para o lado. Saímos de nosso casulo laboral e quando pensamos em chorar, vemos pais de família, mães com seus filhos, trabalhadores braçais e pessoas que, está na cara, têm dramas e vidas muito mais fodidas do que a nossa ou, pior, uma vida parecida com a que tínhamos. E se o choro insiste em chegar acima da garganta, nos sentimos culpados. Não é aquela mea-culpa de classe média recém-ascendida que dá esmola aos pobres; é uma culpa interna, dolorida, da certeza que um dia a vida já foi pior, você superou e, agora, pra quê? Pra quê? Pra quê chorar? Não tem nada a ver com parecer “fraco” ou “forte”, isso nunca esteve em pauta; chorar, para os engolidores de choro, tem a ver com a capacidade de enxergar ou não a conjuntura que estamos inseridos. Mas é claro que não somos um monstro de ferro, uma versão ambulante de um rochedo do norte. E é por isso que, na maior parte das vezes, choramos sem motivos, sem ninguém ver, trancados em algum lugar. Porque se não há razão específica, não há termos de comparação, é como se fosse um choro de conjuntura, por tudo, mas que ninguém pode ver. Acontece raras vezes, afinal só acontece quando pessoas fortes (ou nem tanto) chegam no limite. Talvez por tudo ou por nada, porque aí tudo bem, sem drama.
SP, presente.
Ele não tem a gentileza sempre lista dos mineiros, nem a extroversão e camaradagem aparente do carioca, dificilmente vai tirar uma palavra carinhosa do bolso só para te agradar, tampouco vai se preocupar com as idiossincrasias da sua estúpida vida cotidiana, porque a rotina dele também acorda heavy metal e dorme punk rock. Não adianta reclamar do calor infernal dos últimos milhares de anos, porque ele já leu essa matéria quando acordou, pegou 23 ônibus, 127 trens, 225 metrôs, gastou os últimos 20 reais da carteira para pagar o táxi que correu no caminho para não chegar atrasado no trabalho e, claro, caramba, ele SABE que está calor. Não existe espaço para obviedade no universo paulistano. Pelo menos não para as mais recorrentes. Te digo também que não adianta reclamar do seu drama queen, porque ele conhece infinitos casos piores de gente que se deu mal, sacodiu a poeira e não ficou de chorume; isso quando não for a sua própria história de vida. Paulistano é tipo caranguejo que anda pra frente. Ele vai. Não se sabe exatamente onde, nem como e o quando é sempre agora. Sem volta. Te soa bruto? Não é. A cidade tem uma energia um pouco incrível. Basta por o pé na rua e você é tomado por ela. Pela pressa, pela vida, pela vontade de fazer. Espremida em um trem, calor desumano, sem chuva há quase uma semana, jornada violenta de trabalho, ninguém para de fazer planos. Pense na vida enquanto sobe a escada rolante, mas mantenha-se à direita. Existe organização no caos. Até para os seus 15 segundos de delírio ou de desabafo íntimo, você vai ter que lidar com o outro. Paulistano é sempre o outro. Em uma metrópole que recebe pessoas de vários lugares, aquele com quem você interage sempre vai ter algo a te ensinar sobre a cidade. Mesmo que não se defina paulistano. E então quando você menos espera, está ensinando até seu amigo viaduto-do-cháense qual a saída correta do Anhangabaú. E o sentido exato do trem. Não faz diferença se você nasceu ou não aqui, isso é absolutamente irrelevante neste lugar. O lance é a relação que você cria com São Paulo. Se você é capaz de amar isso aqui, é paulistano. Porque não é fácil amar alguém com tantos defeitos. Mas o dia que você entender o valor de uma presença que pode custar 23 ônibus, 127 trens, 225 metrôs mais a corrida pelo táxi por causa do atraso ou alguns quarteirões a pé segurando a mochila na frente... para encontrar um amigo, ver um parente, tomar uma cerveja ou, simplesmente, voltar para casa, você começa a entender o que realmente é intenso e fascinante na capital paulista.
quinta-feira, 16 de janeiro de 2014
Sobre políticas públicas.
São três jovens brasileiras, de 16 anos, do ensino público, do interior do
Espírito Santo, que estão no Coined para estudar espanhol por três meses, em
Córdoba, oriundas de um programa do governo federal. É um tipo de situação que
te deixa absolutamente muda.
Quem é do "mundo real", e não vive
sonhando dentro dos muros da academia, tem, no mínimo, um súbito de vontade de
dar um abraço carinhoso na presidente. Claro que é rápido e passa. Mas quem,
como eu, dividiu a escassa merenda em talheres e pratos de plástico com pessoas
que levavam comida escondida nos bolsos para a família em casa sabe exatamente
do que estou falando.
Quem está diante de uma jovem que nunca saiu de sua
província no interior do estado, malemá conhece Vitória e está estudando
espanhol com boa estrutura custeada pelo Estado, não pensa nos outros milhões
de jovens que não tiveram essa oportunidade. Elas passaram por três peneiras e
podem não saber quanto custam mensalmente para suas famílias, mas sabem
exatamente quanto custaram para estar alí. Não. Não são as filhas do prefeito,
nem do vereador, nem do empresário. Dito isso, é possível detectar precisamente
neste momento onde reside o cerne do sucesso da "Frente Popular"
grosseiramente conhecido também como populismo de esquerda.
Diante desta
situação, digo cara a cara com as meninas (sim, só mulheres), qualquer pessoa
teria a sensação do abraço em quem lhas deu essa chance. Porém o que se faz a
partir disso é o lance da virada. Definir se esse é o ponto de partida ou de
chegada pode determinar em que lado da fronteira estaremos mais para frente.
Primeiro, sim, pensar no caos geral da educação pública e o responsável, bem, é
o mesmo do abraço. Segundo, pensar nos mais de um milhão de jovens como elas
que não terão uma boa história. E mais, não se conformar com a alegria pontual.
Se não exigir que a sensação do abraço seja maior, muito maior, pois atingirá
milhares de jovens ao mesmo tempo e não apenas três, 10, 25 ou 200.
Para mim,
isso foi muito marcante. É como se viesse à tona, nos confins de Córdoba, uma
boa parte de mim.
Política pública é uma parada linda, de verve, de brio, de
coração. Não podemos parar por aqui.
domingo, 5 de janeiro de 2014
Sobre os diários do holocausto.
Estou no terceiro. Comecei tardiamente, é certo, com Anne Frank depois dos 20 anos. Em seguida Dawid Sierakoviak e, por fim, Helga. É incrível como a literatura pode ser muito cruel. Não por causa do óbvio: o conteúdo dos diários, que relatam fatos de natureza vil por si. Mas por causa da comparação.
Anne Frank dispensa apresentações e Sierakoviak é profundamente intenso. Ele escreve até os últimos dias de vida, até os últimos suspiros. Morreu de fome e outras “doenças comuns” do gueto, em Lódz, onde (não) viveu com mais 60 mil judeus. São dois livros que, depois de ler, você fica com a sensação de que a humanidade te deu um tapa na cara e lateja por semanas. Mas Helga não. E é aí que reside a crueldade.
Existem explicações técnicas. Por exemplo, o livro é um misto de diário infantil com escritos posteriores editados e reeditados, muitas notas com separação temática em que a cronologia não coincide. Só o prefácio de como o livro foi organizado já dá certa desorganização mental. Ela começa a escrever com oito anos e “termina” com quinze. Não há muita diferenciação de estilo, portanto não parece nem uma menina de oito, nem uma adolescente de quinze, nem uma adulta revivendo suas memórias.
E então, você, cara pálida, que tem noção da importância de um relato como esse, começa a se sentir culpada por não estar tão, digamos, afetada com a história. Mas você continua. Culpada, mas prossegue. A história acaba. E fim. Na sua caixinha de afetos literários, Helga não ficou amiguinha de Anne nem de Dawid. E olha que ainda tem desenhos feitos por ela durante as prisões e, no final, uma entrevista com autora. Mesmo assim, sua imaginação não foi parar em como seria a adaptação para o cinema. Ficou ali, na superficialidade do relato.
Se eu parasse nas questões técnicas, resolveria o problema. Mas, de alguma forma, isso me intrigou. Explicações subjetivas podem também fazer sentido. Por que Anne e Dawid não poderiam ter sido talentos abortados e Helga não? Será que os diários de Anne e Dawid surpreendem mais porque eles têm o discurso hábil? Ou Helga, posteriormente, mexeu tanto no texto que perdeu o caráter inicial? A autora afirma ter acrescentado informações para ajudar o leitor. Será que se tivesse mantido o relato infantil teria salvado ou teria ficado mais enfandonho? Ou, pior, será que esse movimento cruel está na leitora? Será que, por ser uma realidade tão distante, a selvageria da vida nos transformou em qualquer coisa?
Não quero crer que sou incapaz de me abalar com essa história. Frank e Sierakoviak não deixam. Helga passou por tudo aquilo destinado aos judeus que viveram aquela época. Com algumas distinções. Ela foi parar em Terezín, depois em Birkenau e, só Deus sabe, conseguiu se livrar dos “transportes”. Passou fome, frio, cansaço, tifo, piolho, perdeu o pai, amigos, parentes, viu a “paz” chegar pelas mãos dos russos em Manthaussen e se desfalecer três anos depois com a invasão soviética na República Tcheca. Mas não. Talvez eu até siga culpada por causa de Helga, mas não vou forjar a impressão sobre um livro.

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