quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Notas de leitura. Antonio Candido. "Iniciação à literatura brasileira".

Não queria falar do Antonio Candido sem ter outro livro engatado. Ele é conhecidíssimo entre os seus, venerado nas letras, quase um pleonasmo na cultura literária do país, Aquele-que-deve-ser-nomeado nos quatro cantos da Academia quando a pauta é humanas. Então pensei: falar dele vai ser a maior punhetação do planeta. Há alguma coisa que já não tenham dito sobre o quanto ele é foda? Não. Acho que não. Até uma colega de trabalho, que acabei de conhecer, ver um livro dele na minha mesa e soltar "MANO, esse cara é do caraleo. Conheci na minha pós este ano. Como eu vivi tanto tempo sem saber que ele existe?". E me recoloquei no mundo.
O livro chama "Iniciação à literatura brasileira". O autor tinha escrito a pedido de uma editora italiana que ia fazer um compilado, a obra não rolou e ele aproveitou os escritos para publicar esse livro. É pequeno, rápido, simples, curto e grosso e uma grande aula de literatura. Sem muitos formalismos e expressando opiniões contundentes, Antonio Candido traça um panorama literário desde o século 16, quando ele entende que começa a haver literatura em terras brasileiras (não necessariamente escrita por brasileiros).
Corre em paralelo à cronologia e ao tatibitate de quem é quem na fila do pão em determinada época, a história da formação do sistema literário brasileiro que, obviamente, passa pelas transformações e turbulências políticas deste Brasil varonil (e dá até para ter um consolo de quantos 2015 tivemos ao longo da história do nosso país nada feito para amadores).
E se você é daqueles que faz uma cara meio feia para essa exaltação anacrônica dos hipsters do século passado, que não saem do centro expandido e falam em nome do povo, sugiro que leia "A cidade das letras", do Angel Rama, um crítico literário uruguaio (mas ele fala da América Latina, incluindo o Brasil). Não para ficar feliz. Nem espere um alento. É para ficar ainda mais puto mesmo sobre como a história da academia é se descolar da realidade. Não por acaso, Antonio Candido o considera o maior crítico de seu tempo.
O nosso brasileiro não se aprofunda nessas questões (não neste livro) porque não é a proposta da obra. "Iniciação..." é exatamente aquilo que se propõe: um livro rápido que te guia (e te dá dicas ótimas) para navegar em águas cativas e ser preciso Emoticon wink
Por fim, entrei no mar da coletânea História da Literatura Ocidental do ‪#‎Carpeaux‬ Emoticon heardireto no livro 6 - Romantismo (ok, me julguem).
E fiz uma descoberta curiosa: Jane Austen é considerada pré-romântica. Lidem com isso.
Volto depois para falar do Otto Maria e essa edição de bolso cujo objetivo EXPRESSO é "popularizar" o hómi, mas são incapazes de traduzir trechos e notas em alemão (tem até poesia para os super fluentes). Sobrou pedantismo e/ou um cadinho de irresponsabilidade.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Nota de leitura. "O dia de um escrutinador", Ítalo Calvino.

Notas de leitura. É meu quinto livro do Ítalo Calvino ao longo da vida. Já estou naquele ponto de se sentir íntima da criOnça, quase como o Fernando Pessoa que, muitas vezes, tenho certeza habitar em mim todas as versões femininas (e feministas) de seus heterônimos. Aliás, outro dia, estava pensando como seria a Alberta Caeira. Fodona que só ela. A Alvina de Campos, então, ia rodar a baiana, mas ia cansar de ouvir da família brasileira "também, quem mandou usar esse short curto".
Voltemos ao italiano.
Chama "O dia de um escrutinador" e, me indicam as notas do autor, é praticamente o relato de uma experiência auto-biográfica.
Amerigo cumpre uma função de mesário durante eleições importantes na Itália. É a primeira depois de um longo período sem o exercício da democracia. Ele, um membro pouco orgânico de um partido de esquerda, é convocado a passar o dia cumprindo sua função cidadã em um hospício distante.
Como parte da estratégia dos "democratas-cristãos" era incluir inválidos, defuntos, incapazes e monasteristas para não "correrem o risco" de perder para os comunistas, medo clássico do meio do século passado, Amerigo se viu diante de situações em que suas próprias convicções sobre normalidade, moralidade e consciência política são abaladas.
Como sempre, para não ter spoilers e também para registrar ~primeiras~ impressões, estou na metade final do livro.
Esta obra diferencia-se das outras que marcam o estilo de Calvino. Não há o humor lancinante que cria uma realidade fantástica em duas frases como "O Cavaleiro Inexistente" ou as metades do Medardo em "O Visconde Partido ao Meio", tampouco a narrativa complexa do "Se um viajante numa noite de inverno" e passa mais longe ainda do "Por que ler os Clássicos".
Neste livro, Calvino se aventura, sem nenhuma licença poética, nas reflexões políticas de uma Itália ainda fissurada, de um modo que só a "licença literária" pode construir. Ainda que seja sob uma perspectiva predominantemente individual, Amerigo está sempre reavaliando seus conceitos em sua relação com o outro, que é próximo e distante, tão igual e tão diferente.
"O dia de um escrutinador" diz muito mais sobre a humanidade entre as linhas do que quando necessariamente fala-se sobre ela.
BUT, como não podia deixar de ser Calvino, ele lança mão de cenas hilárias e situações bizarras para costurar sua narrativa. Recomendar o italiano, pra mim, virou pedir xícara de açúcar no vizinho de tão clichê. Mas vale o corre pra quem procura um perspectiva literária da vida real da democracia (ou melhor, dessa democracia).

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Se a cidade ficasse em silêncio


Se a cidade ficasse em silêncio. Se, por um instante, ônibus, metrôs e carros parassem. As indústrias desligassem suas máquinas, as senhoras as suas batedeiras, se nem o arrastar de chinelos da operária rumo a mais um dia de trabalho, nem o som do cobertor arrastado pelo pai ao cobrir o filho, nem a maçaneta da porta de quem chega atrasado. Chapas de padarias e botecos esfriam, copos e talheres em repouso, o ir vir incessante da vida que pulsa, nada ousa fazer um ruído sequer. Nem o zíper da bolsa da criança que prepara os materiais para a escola, nem o leite fervido para a mamadeira de quem acabou de encarnar neste plano. Se o silêncio da vida predominasse, ratos de esgoto ecoariam aos céus. Patas em metal e asfalto e gritos viscerais pelo último pedaço de carne defunta. O fluir do líquido espesso e ácido que alimenta casas em encanamentos enferrujados, dejetos formam chorume, escorrem pelas calçadas e viram bumbos ao cair e bater no eco profundo das galerias vazias. O vento que uiva nos canais de trem explode seu rumor ao carregar o cheiro fétido que exala pelos bueiros. Se a cidade ficasse em silêncio, tornar-se-ia ensurdecedora.

terça-feira, 26 de maio de 2015

camada fina de areia

camada fina de areia
sob o impenetrável
não se pega nem um punhado
ainda assim, 
estendo minha cadeira
e fico sob o sol

se o vento do ocaso 
desfaz o cenário 
o bronze, beibe
está garantido 

sexta-feira, 27 de março de 2015

Brasil a pé.

Acabei de passar pela Praça da República e vi greve de professores para todo lado. Tudo organizado: credenciamento, jurídico, materiais e aquela certeza da luta de trabalhadores que contagia e irradia. Gente que faz educação no chão da escola e confesso que até fiquei com vergonha dos meus parcos pequenos desejos de médio prazo (esses que você vai pensando no caminhar da vida). Ao atravessar o viaduto do chá, vi um homem ajoelhado recebendo a pregação de um outro homem, figura carimbada do centro, que sempre berra, soca na bíblia, e berra de novo. Ele pregava, pregava e pregava aquela culpa eterna e dizia que todos os problemas serão resolvidos assim que você passar na fila do caixa rumo ao paraíso; aqui, meu caro, desiste. Andei mais um pouco e quando já fazia a curva para entrar na Prefeitura, ouvi um lindo e sonoro "somos CONTRA a redução da maioridade penal" enfáticas e repetidas vezes. Me arrepiei inteira. Foi quando me dei conta de uma Praça do Patriarca lotada de crianças e jovens... rezando. Na faixa do carro de som "via sacra pelas crianças, adolescentes e jovens". E, entre uma oração e outra, lindas intervenções contra a redução, de emocionar gente descolada como eu.
O Brasil não é mesmo para amadores.
E não abro mão de vir trabalhar a pé pelo centro.

Que ideia origin... não, péra.

Eu gosto de acompanhar esses casos ‪#‎fail‬ da publicidade, não só pela questão feminista, mas também pelo processo de criação. Porque, ao contrário do que se imagina, não se trata de "limitar" a criatividade com chatices-politicamente-corretas, trata-se de eliminar as amarras do preconceito de todas as formas no processo criativo.
Não é muito mais incrível imaginar uma narrativa que dê conta de um mundo em transformação? Ah, Ana Clara, mas aí tem que pensar demais. Fica difícil fazer propaganda com tantas variáveis. É, a vida é dura até pra vocês, meus caros.
Mas eu sou otimista: quero crer que os publicitários querem se superar e não apenas repetir fórmulas, certo? Isso que dá o toque original, que se torna inesquecível e não um mega gerenciamento de crise arrancando cartazes madrugada afora ou administrando um completo tiro no pé em nome de esmalte.
Reproduzir preconceito todo mundo faz, não é nada original. E, para usar as palavras que chegam aos ouvidos, tem se demonstrado pouco lucrativo.
É certo que a publicidade é um instrumento a serviço do lucro (e do capitalismo, num sentido mais abstrato), portanto não se importa muito em perpetuar preconceitos e trabalhar com reducionismos e generalizações, entretanto o custo de fazer o "veja bem" tem atrapalhado não só a criatividade, mas também o bolso.
E, desse imbróglio todo, o que me deixa curiosa é o fato de a empresa do produto em questão chamar TODA a responsabilidade para si, de modo que o nome da agência responsável, na maior parte dos casos, fica totalmente blindada. Não que a empresa não tenha que pagar, pelo contrário, mas essa falta de "distribuição da culpa" me intriga de alguma forma.

3 horas.

Acorda cedo para a academia. Vê no celular que tem reunião às 09h.
Desiste da academia e volta a dormir. 10 minutos depois. Lembra que a água da casa só chega às 09h. Decide ir à academia de novo. Vai e volta correndo.
Se arruma em 15 minutos. Lembra que tem festa. Troca de roupa. Joga lenço, meia-calça e jaqueta na bolsa. Tempo louco. Reza para o estojo de maquiagem estar lá dentro. Você não lembrou de pegar. Sai correndo. Responde email e wtzap no caminho. Metrô lotado e celular em edge. Descobre que a reunião não existe. Vai tomar um suco. Pensa se era essa mesmo a roupa que queria estar, não fosse a pressa. Senta no PC e descobre que vai ter um longo dia de trabalho... sem óculos. E ainda são 11h.

Contagem da PM

A maior prova do fim do subdesenvolvimento é de que o país virou uma grande Olimpíada de Matemática.
‪#‎agoravai‬

Gênios do Brasil.

Fico pensando nos gênios, sabe: Cara, tá tudo uma droga, vamos fazer um protesto? Vamos! Vou criar um grupo no Wtzap! Puts, como não pensei nisso antes? Vamos fazer algo novo? Sim, deixa eu ver: algo que eu nunca fiz antes... já sei! Panela. Bater panela, cara! Mano, ideia top. Vai ser tipo aquela mina do BBB que estava revoltada com o rolê todo. Foi um marco na minha vida de indignado com-tudo-que-está-aí. Meu EXEMPLO. Pergunta aí no grupo se alguém já fez isso. Viu? Ninguém. VAMOS BOMBAR. Agora, domingo à noite, tô afim de sair, não. Bora fazer de casa mesmo. Isso, na hora que ela estiver falando, a gente pá! Aê, gênio! E qual a pauta? Ah, grita qualquer coisa, ela é uma vaca mesmo. Isso, vaca, vagabunda. Ai como eu odeio aquela... MULHER. Isso atiça aí, vamos falar o quanto estamos indignados com o fato dela... dela... dela ser isso aí vaca, vagabunda, piranha. Cara, começou o Fantástico, tá bom já. Já deu.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Crônicas do Rio de Janeiro, de Roberto Arlt.

Quando li a contra-capa, decidi ler por despeito. Imagina: um argentino, portenho, jornalista, vem pro Rio, nos anos 30, e se propõe a escrever crítica e causticamente sobre a terrinha. Para piorar, é a primeira vez que o camarada sai de sua República  da qual tanto se vangloria e cai em um país que aboliu a escravatura há poucas décadas. E ainda, me atesta o editor, essas crônicas reunidas são inéditas, portanto tal narrativa ainda não tinha sido apresentada até então.
/o\
Em tempo, já tinha definido ler algo do Arlt por indicação do Cortazar, em "Clases de Literatura" e por um interesse geral-futuro-imaginário de me aprofundar em contos latino-americanos, mas isso é outro papo.

Esperava o fim dos tempos.
Cóleras de raiva.
E não aconteceu.

Nas crônicas, é fácil distinguir as críticas de caráter coletivo e social mais profundas daquelas de escolhas, gostos e hábitos pessoais -- como optar por não visitar museus , não se interessar por "construções coloniais" e dissertar horas sobre o calor impiedoso da antiga capital do Império.

Bueno.
Arlt faz a curva de aprendizagem da sociedade brasileira típica do estrangeiro: se enternece com a amabilidade e a sociabilidade dos nativos; impressiona-se como as crianças são bem-educadas, como as mulheres andam na rua (segundo ele, mais "livres" e menos "oprimidas" que as portenhas), como os negros são "integrados" ao convívio, até captar as matizes perversas e cruéis tão caras ao país.

Racismo.
A primeira nuance é sutil como um elefante na cristaleira: o tempo de permanência nos cafés. Como bom portenho, o autor frequenta esses lugares e nota que alguns podem ficar mais tempo do que outros. Negros entram, tomam café e, se demoram, são retirados. Arlt escreve não com um olhar crítico e piedoso sobre o racismo, pelo contrário, ele mesmo é racista extremado, não do tipo que reivindica o preconceito, mas do tipo que externaliza, sem meias palavras. Não é um racismo à brasileira: velado, tímido e lancinante; é declarado e ponto.

Grone.
Esse termo me custou uma rápida pesquisa que o tradutor do celular não resolveu. É uma expressão pejorativa, típica dos portenhos, oriunda de um hábito de trocar as sílabas (ne-gro >> gro-ne) para dizer sem dizer. Mesmo, digamos, com toda essa convicção e elaboração sobre a inferioridade de outra raça, Arlt se viu assombrado e exasperado quando descobriu, já na última semana de viagem, que o Brasil tinha abolido a escravidão há apenas 42 anos.
"Então quer dizer que aquela velha negra...? / Sim, ela foi escrava / Aquele senhor negro que tece redes para vender tamb.../ Sim, ele também/ Aquele senhor distinto, bem-afeitado dirigindo um carro/ Sim, era dono de escravo".
Choque.
O argentino também se horrorizou com a diferença nada sutil entre "castigar" e "maltratar"; os valores de cada mercadoria; o papel dos feitores e essas idiossincrasias tão conhecidas em nossos livros de História. Sim, ele, racista declarado, chocou-se. Durmam com essa.

Particularmente, Arlt pode até ser um grande escritor e cronista, com prêmios e tudo mais, mas não passa de um jornalista medroso e medíocre. Ele chega a aventar uma entrevista, um bate-papo qualquer, com um desses negros anciãos espalhados pelas ruas. Mas por medo ou preconceito ou ambos, não o faz: "acha melhor não". Simplesmente.

Ócio e labuta.
A crítica mais contumaz e eloquente é sobre o nível cultural da classe trabalhadora. Arlt espanta-se que existam apenas três teatros para dois milhões de pessoas. Não há bibliotecas operárias, coletivos culturais de trabalhadores e outras agremiações que permitam o entretenimento e o enriquecimento espiritual da classe. Ele mesmo aprendeu que aqui vive-se para ganhar "el feyon" e o resultado é uma cidade linda, porém tediosa, com uma classe média limitada e uma polícia extremamente opressora.
85 anos depois, de minha parte, só tendo a rever o tédio.

Yungar
Outro termo que me custou mais pesquisa, porque o tradutor não resolveu. Arlt o usa para todos: mulheres, negros (ainda mais os negros), jornalistas e afins. Encontrei a referência do termo em inglês "slog away": algo como trabalhar muito durante muito tempo. Livre tradução: ralar pacas.

Mulheres.
Creiam ou não, Arlt não sai exaltando as "belezas naturais da mulher brasileira". Ao falar sobre o tema, diz que aqui as mulheres são até "mais livres" que as portenhas: andam à noite pelas ruas, não sofrem tanta "abordagem" e parece, segundo ele, que não tem tanta resignação com seu lugar na sociedade. Até entendo, por certa experiência própria no século seguinte.
O machismo dos latinos, assim como o racismo dos portenhos, é muito mais explícito, mas não menos cruel. Como não há um interesse específico, Arlt não capta nuances, apenas destila frases e concepções machistas clássicas sobre mulheres decentes e não decentes e voi lá.

Por fim, não há um argentino recalcado falando mal do Brasil. Há um estrangeiro muito capaz que capta impressões de um país que mudou muito e pouco ao longo dos séculos. Outras notas mais gerais, como já disse, são de interesses mais pessoais e características peculiares.

Há passagens divertidas, inclusive sobre uma entrevista que ele concede a um jornal brasileiro e, quando lê a matéria, vê uma aspas não dita por ele com um enaltecimento de Castro Alves. Ele se indigna: "Eu sei lá quem é Castro Alves, não me interessa saber, como podem dizer que eu disse isto?".
Pois é, Arlt, bem-vindo.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Grande Tucanistão Veredas #1

Eu e uns amigos estávamos em um bar.
Começou a chover.
Forte.
Por mais de vinte minutos.
O homem da mesa ao lado levantou-se abruptamente...
e fez o que todo paulistano sensato faria:
sacou o celular para registrar.
Nunca se sabe.
E a vida segue em Grande Tucanistão Veredas.

Drama 24 de dezembro

-- Filha, que saudades! Estava te esperando...
-- Eu também, mãe! Que linda! Me esperando... praaa...?
-- Ir ao shopping!
-- Oi?
-- É, oras.
-- Cê jura?
-- Sim.
-- Hoje?
-- É.
-- Véspera de Natal?
-- An-ham.
-- Qual?
(Ainda refletindo na pergunta sobre a livre escolha de qual barbárie enfrentar)
-- Dom Pedro
(Calafrio na espinha)
-- Fazer o quê?
-- Comprar seu presente.
-- Meu? Só meu?
-- Sim, não quis comprar sem a sua companhia.
(Olha o gooolpe)
-- Sério?
-- É...
(Eu já manjada dos paranauê maternal)
-- Deixa pra depois então, meu maior presente é a sua companh...
-- Ah... mas também faltou ainda a lembrancinha da fulana, beltrana...
(bingo)
-- Mas...
-- Vamos enfrentar isso juntas.
(Como uma espartana convocada para a guerra do Peloponeso)
-- Vale pelo menos almoçar em casa pra poupar a cena do restaurante?
-- Vale. Relaxa, filha, já enfrentamos coisas piores...
--... (suspiros)....
‪#‎prayforme‬

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

SP Off-road #1

-- Ana Clara, quanto tempo! O que você anda aprontando?
-- Eu? Aprontando? Nada. Sou um poço de serenidade. 
-- Tá trabalhando no mesmo lugar?
-- Sim, continuo aqui...
-- E esta cidade maravilhosa?
[deve ter confundido]
-- São Paulo?
-- É, oras...
-- Água acabando, gente querendo a volta da ditadura militar, cantor puxando passeata fascista, deputado eleito dizendo que fuzila a presidenta, um bando de birrento que só questiona a eleição porque perdeu, tem uma galera de luto pela democracia que eles não sabem exercer e querem acabar, tá assim, digamos, uma beleza... melhor impossível.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Água e processo eleitoral.

Não é só xingar o governador pela incompetência administrativa e associá-lo ao candidato do mesmo partido. É muito pior do que isso.

Vejo que as pessoas reclamam da água, depois da polarização eleitoral e associam uma coisa à outra apenas pelo viés seu-coxinha-desinformado versus seu-petralha-de-uma-figa.

Semana passada, estive em uma reunião do Conselho da Cidade aqui em São Paulo do qual participou Vicente Andreu, diretor-presidente da Agência Nacional de Águas (ANA). A minha pauta nem era água, era iluminação. Mas fiquei para ouvir e me estarreci.


Depois de uma longa explanação sobre como era formado o sistema Cantareira, Andreu apontou quatro fatos concretos e irrefutáveis:

1)      Nunca atravessamos uma seca tão grande
2)      Existe empenho por parte da Sabesp em suprir a falta de provisão
3)      As decisões que precisavam ser tomadas no passado não foram tomadas (se fossem, a situação seria outra)
4)       O processo eleitoral tem dificultado a tomada de decisão e, consequentemente, tem diminuído as alternativas (de salvar o estado)

De que maneira o processo eleitoral “dificulta” a tomada de decisões importantes?
Andreu explica:
1)      A gestão de saneamento e água distribuída é feita pela Arsesp (Agência Reguladora de Saneamento e Energia). É ela quem regula a tarifa e o controle praticado pela Sabesp.
2)      Como sabemos, o uso de água é semelhante ao de energia: quanto maior a renda, maior o consumo.
3)      Para que a Arsesp reprograme a tarifa em função do consumo, o governador precisa RECONHECER o racionamento, por meio de decreto, porque já existe uma Lei de Saneamento. Em outras palavras, para aplicar tarifa, o governo precisa decretar situação de escassez, o que AINDA NÃO FOI FEITO.
4)      Em termos de estado, você só reconhece uma situação oficialmente, portanto é como se o governo entendesse que absolutamente NADA está acontecendo – que  não existe uma falta de água batendo à porta das casas.

Com esse clima “nada acontece, feijoada”, estamos expandindo o potencial da crise hídrica para toda a Grande São Paulo. Além do decreto, existe outra medida que está inviabilizada por conta do processo eleitoral.

Vicente é didático mais uma vez:
A água que abastece a RMSP vem de duas formas: gravidade e bombas. O volume morto tem 400 milhões m³ de água (mas nem todo ele está disponível). O governo pediu 180 milhões m³. Desses, temos hoje pouco mais de 30 milhões m³.

Quanto entra e quanto sai de água no Sistema Cantareira?
O ideal é que entre 25m³ de água por segundo. Hoje, entram apenas TRÊS m³ e tiramos 24m³. Esta situação está insustentável desde o início do ano e, a partir de junho, NENHUMA regra foi fixada. As medidas que poderiam ter sido feitas antes não foram feitas.

Alternativas?
A médio prazo, a  ÚNICA alternativa é avançar no Volume Morto, não existe nenhuma outra. Poços alternativos e carros pipas podem até resolver em cidades pequenas com, no máximo, 150 mil habitantes. Mas para uma cidade do porte de São Paulo são medidas que, definitivamente, não resolvem.

IMPASSE
Para tirar mais água do Volume Morto, o governo do estado precisa estabelecer as vazões a médio e longo prazo. Ou seja, precisa de um estudo que deveria ter sido entregue em AGOSTO e não foi, porque, como sabemos, seria reconhecer o estado de escassez. Isto significa que teremos que sacrificar nosso FUTURO a médio prazo.

FATO ELEITORAL
O mais importante é que as decisões estão sendo tomadas em nome de vocês, sem vocês escolherem. O reservatório foi tão consumido que tomar um ou outra decisão significa 10 ou 15 dias de administração de governo. Se tivéssemos discutido antes, a situação seria outra. Ou chove ou a RMSP vai ter conviver com restrições absolutamente inéditas na nossa história. A água não existirá.

>> Porque racionamento se faz quando tem água, racionamento sem água é absolutamente incontrolável. Onde não há a opção de fazer o gerenciamento técnico, o resultado é descontrole <<.

O que mais espanta é que a sensibilização para o tema inacreditavelmente não aconteceu, nem nas mídias, nem nos jornais, nem por parte do próprio governo.  

Cultura.
Nós, paulistas e paulistanos, não temos a cultura necessária para nos adaptar a uma situação de escassez. Aqui, com mais água, vamos enfrentar muitos mais problemas com a população do que o semi-árido, por exemplo.

Sobre o período de chuvas.

Honestamente, a única previsão que podemos garantir com segurança sobre chuvas é de 5 dias. Para 15 dias, podemos ter alguma margem de acerto. Mais do que isso, é trabalhar com modelos. Todo instituto sério admite isso. Portanto é leviano trabalhar com previsões de 15 dias ou mais. O único jeito para São Paulo é ou chove, ou chove.

a pé

Mobilidade urbana invadiu meu peito no trampo. Estou enfronhada com o tema até às tampas. Aí a gente se dá conta porque faz certas escolhas. Política pública apaixona. De verdade. Você corre, pá, e tal, e fica atrás de dados ciclovias, vira a loucona das faixas, rói as unhas com a repercussão, vive de pauta, de bloco, de síntese, de contexto. A sociedade entendeu? É transporte público. Vamos lá. Todo mundo na rua, isso. Olha pela janela. Tá lá. Faixa. Não é só vinte centavos, nem só mobilidade, é direito à cidade. É pedestre, gente, bike, gente, moto, gente, busão, gente, metrô, gente. Tudo gente ali, me dá um espaço aí. Tipo texto com pensamento atropelado, fica confuso, mas vai, tem que ir. Ajeita, desenrola e sai do padrão, a coisa emperrada, o carro que fala inglês, alemão, francês, faz baliza sem mandar e não sai do lugar. E então o coletivo, o contato, o humano, o todo mundo é igual que flui, aos poucos. O silêncio da bike, inspiração no banho, instante inesperado, divagar no horizonte do viaduto do chá e pá, passou, sem ruído, andou, próximo parágrafo, por favor. É literatura urbana, da coisa que flui, que anda, cidade que pensa é assim, não para, escreve, se move e apaixona.

Grande Tucanistão Veredas #0

Outro dia, o céu estava ligeiramente nublado, e uma amiga disse: "vamos logo pra casa, Ana, se não vamos tomar chuva". Eu parei. Pensei. E sentenciei: "tomara". Quero chegar encharcada reclamando dos meus pés enrugados, da barra da calça, do cabelo úmido, de inutilizar 3 sapatilhas por verão, de perder 20 sombrinhas, de ver gente brotar do além para vender guarda-chuva no primeiro pingo d'água e da impossibilidade de se locomover sem chegar no destino parecendo que saiu da guerra. E não. Não choveu.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Sobre meritocracia. Um pouco da minha história.

Estudei em mais de 12 escolas em toda vida. Até a 6ª série do ensino fundamental (1996) passei por várias escolas públicas. Em todas, via meus amigos esconderem parte de sua cota de bolacha no bolso, porque não tinha o que comer. Não tinha essa de vítima, era comum. Aliás era coisa da malandragem, de esperto. Porque se alguém descobrisse que havia bolacha a mais, não engolida antes de acabar o recreio, corria o risco perder para algum marmanjo esfomeado. Tinha que ser sagaz.
Em 97, minha mãe já estava desesperada sobre o que fazer com minha formação. Não tínhamos dinheiro. Meu maior presente de Natal era uma calça jeans da feira perto de casa. Prestei uma prova de BOLSA para estudar no sistema Objetivo, que tinha acabado de chegar na cidade. Fiquei em 4º lugar. Ganhei 80% de bolsa até o fim do colegial. E ainda assim, com os 20% restantes, perdi as contas de quantos bimestres passei sem apostila, usando a xérox do coleguinha, por atraso de pagamento.
As “amigas” da minha mãe e até algumas tias já tinham decretado o irrevogável: “o lugar da Ana Clara é em balcão de loja; vai ser caixa de supermercado para aprender a viver de acordo com o que ela tem e não com o que ela quer; onde já se viu ELA estudar em escola particular; a Mara vai deixá-la muito mal acostumada”. Minha mãe sempre me empoderou o suficiente para fazer ouvidos moucos. Um universo abriu-se. Guardo a edição do Objetivo de “David Copperfield”, do Charles Dickens, até hoje, quase como um trunfo. Gastei letrinha adoidado de tanto ler e estudar.
Veio o vestibular. Por várias razões que não cabem aqui, pude escolher o curso que quis, mas fui obrigada a morar em Campinas. Não existe jornalismo em universidade pública na cidade, então prestei PUCC e Facamp. Passei nas duas. Era 2002. Por qualidade, optei pela Facamp, o preço da mensalidade era equivalente a um curso de medicina. Só pude estudar porque consegui uma BOLSA de 70%. Não bastou ter sido uma das primeiras alunas da classe no colegial. O meu destino continuava sendo aquilo que a sociedade queria que eu fosse: menina pobre do interior alfabetizada para assinar o próprio nome e abrir crediário. E então tantas outras vezes, me foi decretado: “como assim a Ana Clara vai estudar na Facamp? Aquilo é faculdade pra rico, não pra ela; por que ela precisa disso? É muito puxado; Mara, lá não é realidade para sua filha, você está louca? Saiba que não adianta pedir dinheiro, não vou ajudar”. Não precisamos pedir para ninguém. O que precisávamos já tínhamos conseguido: o acesso.
O restante da minha história, depois de formada, todos já conhecem.


Não gosto de pensar no “Se”. É um exercício especulativo, geralmente vão, que não leva a lugar algum. Mas a convicção da minha história é tamanha que me permito a digressão. Ou melhor, me permito enfiar o dedo na cara de filhinho de papai mimado, que não entende nada de realidade. Que não sabe o que é viver no limiar de uma sociedade injusta e desigual e enche a boca para falar de meritocracia. Take it easy, galera. O mundo é muito maior do que o seu ódio e o seu chorume. E, por gentileza, pega o seu candidato e o governador paulista e vai chorar na Cantareira que, pelo menos, vai ser mais útil.

Marinando na praia

Quais as chances do pessoal da REDE buscar o guarda-chuva do PSOL? 
a) todas
b) quase todas
c) Não era para a Marina estar no avião?
d) Rede, pSol, areia e mar, quero!

Para Duvivier

Caro, Duvivier
Pela primeira vez na vida, discordo de você. Não do conteúdo, mas da forma. Ou melhor, da forma de concluir. Gosto dos seus textos e te reivindico como aliado importante na luta contra o pensamento conservador e as bizarrices ensandecidas incrustadas em nossa sociedade. Tudo ia bem, com seu humor e ironia peculiares, até você concluir:
"me espanta quando classificam de esquerdistas pautas tão universais quanto a equidade de gêneros e raças, o direito da mulher ao aborto, o direito universal à moradia, à saúde ou à educação. Ser contra a garantia desses direitos universais não é posição política, é falta de serhumanidade”. 
Ser a favor dessas pautas universais é, sim, uma posição política. Eu entendo que você sofra pressão dos reacionários que desqualificam qualquer pauta universal como esquerdismo-caviar, invasão bolivariana, chavismo brasileiro e outros estereótipos risíveis; e talvez até queira dialogar com quem acha que se declarar “não político” está acima do bem e do mal. Eu super te entendo. Mas essa onda marineira (sim, já virou adjetivo) – de não ser nem de lá, nem de cá, nem de lugar algum e reivindicar a ‘serhumanidade’ – demonstrou que não tem força quando as “pautas universais” têm que ser discutidas no palco da práxis, portanto, no cenário político. 
Eu não conheço exatamente bem sua formação política, me parece que você nunca foi um militante (de qualquer organização: movimento social, estudantil, partido, ong, whatever), então talvez seja mais difícil você entender porque é tão caro à esquerda lutar por essas pautas universais com orgulho de fincar o pé em um posicionamento, sim, político. E aí, estou falando em esquerda no sentido bem amplo, desse mesmo que você falou, de lutar por direitos-universais-e-tão-óbvios-meu-deus-do-céu. Quando você defende um negro sendo espancado por policiais na rua, ou um homossexual sendo achincalhado na Paulista, ou dá condições para uma mulher se livrar da violência doméstica, você está tomando uma decisão política. Mas, Ana Clara, política é outra coisa, é aquela coisa nojenta lá do Congresso. Não, cara, não é. Ou é também. Quando você faz aquilo, você defende, mesmo sem querer, a história de pessoas que lutaram arduamente para que esse país não virasse a reedição do feudalismo no século 21 (ou do holocausto, para ser mais atualizada); que lutaram pela democracia, pelo direito de se organizar, de se expressar, de avançar na conquista de direitos. E, se quisermos ser conseqüentes, queiramos ou não, a aplicação desses direitos universais não vai a lugar algum pela “serhumanidade” se não pela disputa política (que vai muito além da forma institucional como eleição, congresso, senado, etc), no cenário concreto e real das coisas; e não na comparação entre cliques e likes entre uma revista e um jornal. 
Veja bem, estou te dizendo isso com o maior carinho do mundo. Porque quero que você permaneça nesse combate, conte comigo e saiba que, sim, quem é contra esses “direitos universais” está tomando uma decisão política (não necessariamente de direita ou de esquerda, mas uma posição) – mais fácil seria, aliás, classificá-los como ‘maquiavélicos’, encaixá-los como vilões dessa novela chamada Brasil e dizer que não passam de bobos, chatos e feios. A briga não é fácil. Mas não tenha receio. Você tem aliados. E muitos. E aliados políticos: no melhor, maior e mais revolucionário sentido do termo.

Artigo: Ser Humanidade, por Duvivier

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Digressão Literária. As brumas do segundo turno.

Digressão literária. Voltei para ler os dois volumes que faltavam de "As Brumas de Avalon". Eu já tinha me apaixonado e não me recordo exatamente por que raios não terminei de devorar a saga em três dias. Devem ter motivos mais óbvios como ser atropelada por outras leituras mais, er, "urgentes" e "utilitárias"; e também devem existir razões mais ocultas como o prolongamento do prazer e da expectativa -- tipo aquele pacote de bolacha gostosa que você guardava escondido na gaveta e comia uma por dia para durar mais.
Agora, PAUSA. E sinto que vocês me olham, perplexos: o segundo turno presidencial estrumbando na sua cara e você aí preocupada com Morgana, Artur, Gwenyhfar, Lancelote, fada, espada, bainha, galhudo e a galerinha gente boa que toma todas no boteco da Távola. Não está fácil. E talvez essa seja a terceira razão ainda-mais-oculta para ter voltado às brumas da Senhora do Lago. Porque se o livro de cabeceira pode dizer muito a respeito do estado de espírito de alguém, o que dizer de pessoas, como eu, que carregam livros de gêneros distintos na mochila, por meses? E mais: que vão e voltam em leituras aleatórias? É certo que, do ponto de vista da formação literária, as aventuras de Morgana caíram em minhas mãos um pouco tarde, mas sempre há tempo para preencher lacunas. De toda forma, a minha reconexão com o fantástico, ainda que em um momento de tensão política e inquietações internas, tem sido muito mais prazerosa do que gerado um sentimento de culpa. Diante das exigências impostas e que me imponho, eu tinha me esquecido de como é bom se afundar em personagens, reinos e encantamentos; de como é possível, já que as pessoas dificilmente o fazem, que uma obra gire na mesma verve imaginativa e viajante que consigo entrar, quando reencontro meu botão rumo a Alfa. Recomendo.